Sobre saúde, vacinas e antibióticos

Em 1918, um surto de disseminação de uma mutação do vírus da gripe se espalhou pela Europa. Vinda da Primeira Guerra, sem quaisquer condições básicas de saneamento e sistemas organizados de saúde, ela foi capitulada pela rápida transmissão em hospitais de campanha recém-saídos da Primeira Guerra Mundial e o mundo assistiu à maior pandemia da história mundial, o maior índice de mortes de causas naturais desde a Peste Negra. A chamada Gripe Espanhola, que, ao contrário do que se pensa, não surgiu na Espanha (surgiu nos Estados Unidos), mas nela foi pela primeira vez noticiada, deixou mais de 50 milhões de mortos em todo o mundo. 

No Brasil, chegou a matar o presidente eleito da República do país, Rodrigues Alves, que, na iminência de iniciar seu segundo mandato, não chegou a assumi-lo e deixou-o para seu vice, Delfim Moreira.

Três diferenças fundamentais existem desse período de tragédia para a saúde global (nem toquemos na economia, não por não ser importante, mas porque nessa época, por óbvio, já vinha arrasada pela guerra, sendo a doença mais consequência que causa da recessão mundial) para os dias de hoje, quando o Covid-19 se espalha pelo mundo com os maiores índices de contágio e números absolutos de mortes na história recente. 

Uma primeira é irreversível (a princípio): em 1923 o pesquisador britânico Alexander Fleming descobriu a penicilina, a primeira substância a ser usada no tratamento de bactérias causadoras e infecções no corpo humano, dando origem aos chamados antibióticos. O vírus H1N1 não é combatido com antibiótico, mas as consequências pulmonares de seu agravamento sim, e elas foram as principais causadoras da pandemia de 1918. 

A segunda, o aperfeiçoamento internacional das condições de saneamento básico e redes de saúde pelo mundo, não restando, por pior que sejam as condições locais de saúde pública, pessoas jazendo doentes nas ruas e atuando como focos indiscriminados de transmissão. Em qualquer país rico ou em desenvolvimento, o recolhimento de doentes graves é um procedimento padrão. Na Europa de um século atrás, mesmos os pacientes mais ricos tratavam-se em casa, sem as condições de higiene e assepsia dos hospitais. Ou seja, uma estrutura e códigos de procedimentos foram estabelecidos desde então.

E a terceira, o conhecimento geral da humanidade, aquele que transcende os livros e os acadêmicos e passa a circular no dia a dia das pessoas ao ser transmitido pelas redes de socialização, cresceu imensuravelmente desde a segunda metade do século XX. Assim vieram conscientizações sobre contágio, vacinas, necessidade de saúde pública como benefício social geral etc. Esta última talvez possa ser a mais importante, responsável pela erradicação de doenças como a varíola e o sarampo, e a redução drástica na letalidade de malária, febre amarela e da própria gripe.

Ocorre que, atualmente, dessas três apenas a primeira não se encontra ameaçada. Os antibióticos estão aí e a penicilina é que já é peça de museu. Entretanto, as ferramentas de saúde pública vêm sendo ameaçadas de sucateamento pelos entusiastas do individualismo e das ideias privatistas radicais que se desenvolveram na última década, sintomáticas principalmente no Brasil e nos Estados Unidos (onde aquela nunca se desenvolveu), mas também na Europa regada a ódio aos imigrantes. E o conhecimento que já tinha se instalado no saber popular vem perdendo espaço para a ignorância que se espalha pelas redes sociais, colocando-se como disruptivo de aberrações científicas que ganham notoriedade popular, como o terraplanismo e o movimento anti-vacina (vivido uma vez no Brasil em 1904). 

Ante isso, a possibilidade de que o Covid-19 saia do controle como o H1N1 em 1918 ainda é mínima, mas, com chefes de Estado desmentindo-o como fizeram Trump e Bolsonaro nas últimas semanas, para depois voltarem atrás, e redes de desconhecimento espalhando mentiras nas redes sociais, além da precarização dos serviços públicos, não é descartável. Resta-nos esperar que os incautos não resolvam sair queimando antibióticos por aí.


Hélio de Mendonça Rocha é jornalista. Atua como repórter de meio ambiente e direitos sociais para a revista Plurale e como analista político para os jornais Brasil 247 e El Siglo de Chile. Foi correspondente internacional na China em 2019.


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