Vamos falar de flores…

No final de 2018, uma professora de academia, com quem tinha grande amizade, veio me procurar. Tinha sido demitida por não atender às exigências da casa. Chegava em horário atrasado? Dava pouca atenção aos alunos? Não. Estava acima do peso. Sim. Uma professora, cuja competência era inquestionável, atenciosa, amiga e conhecedora do corpo humano e dos métodos para aperfeiçoar seu desempenho e saúde motora, foi demitida por “estar gordinha”. 

E mais: tudo indicava que isso não dizia respeito a qualquer forma de desregramento alimentar ou sedentarismo. Ela era vista praticando exercícios nas horas vagas, esteira, musculação e bicicleta. Passava longe da imagem de ser uma hedonista do sorvete, sendo mais uma pessoa de biotipo tendente ao corpo que tinha, principalmente devido à baixa estatura. Para ser magra, teria que manter uma rotina de atleta, daqueles que fazem toda uma carreira para terminar a vida com saúde, com problemas nas articulações e músculos, além da obesidade tardia, devido à interrupção do rítmo metabólico anterior.

Enfim, esta profissional hoje encontra-se reempregada, em outro estabelecimento. Mas a memória da discriminaçao por ser mulher, afinal, é delas que se exige o corpo perfeito em detrimento da competência profissional, dentre outras inúmeras formas de opressão, ainda é latente. Em seu antigo emprego, segundo fontes, até hoje uma mulher não tornou às salas de exercícios como professora, figurando funcionárias mulheres apenas como recepcionistas.

Entretanto, esta academia, às vésperas deste dia 8 de março, distribuía flores para as alunas na saída do treino, como ação comercial pelo Dia Internacional da Mulher.

Este dia, assim como todas as datas referentes às lutas em defesa das minorias sociais e simbólicas da nossa sociedade (vale igualmente para o Dia da Árvore, o Dia do Trabalhador, o Dia da Consciência Negra, o Dia da Preservação dos Povos Originários, antigo Dia do Índio, etc), revela a necessidade da luta pelo reconhecimento, conforme postula o principal teórico atual da Escola de Frankfurt, pilar das discussões sociais no século XX, Axel Honneth.

De acordo com Honneth, cabe aos grupos sociais organizarem-se para deixar a invisibilidade social e passarem a ser percebidos como seres humanos em luta, movimento, alijados de benefícios de que outros grupos usufruem, igualmente sem detectar a mesma desigualdade. Na verdade, a questão não passa por tornar inimigo um suposto sujeito opressor, raro do ponto de vista individual (a menos que no âmbito do caráter, caso do sujeito responsável pela demissão da profissional, caso do sujeito agressor, do feminicida), mas por tornar visível e compreensível as relações socialmente construídas e sedimentadas de opressão. Aquela que as pessoas perpetuam sem ver, o que mulheres brancas eventualmente podem fazer a homens negros,  o que homens e mulheres negras podem fazer a homossexuais, o que homossexuais podem fazer a deficientes, o que deficientes homens podem fazer a mulheres etc, visto que as relações de opressão em nossa sociedade passam por muitos atravessamentos.

Assim, desde movimentos sociais e medidas políticas a ações comerciais responsáveis e transformação em comportamentos individuais, todas as respostas apontam no sentido do reconhecimento postulado por Honnneth. Visibilizadas, as minorias conseguem chamar a atenção da sociedade para a injustiça e para a mudança de paradigmas e ações.

Portanto, a data de celebração e conscientização para a existência e resistência de uma minoria serve como chamada de atenção, concentração de esforços sociais, midiáticos, institucionais, dentre outros, para uma causa que passa despercebida na maior parte do tempo. Ainda que o Dia Internacional das Mulheres devesse ser todos os dias, é ferramenta não negligenciável que ele seja o dia 8 de março.

Desde que ele seja um ato de consciência e não uma simples data de entrega de flores regada a hipocrisia e oportunismo.


Hélio de Mendonça Rocha é jornalista. Atua como repórter de meio ambiente e direitos sociais para a revista Plurale e como analista político para os jornais Brasil 247 e El Siglo de Chile. Foi correspondente internacional na China em 2019.


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