O Pum, o Palhaço e você

“No ser humano, o gás é produzido quando as bactérias no sistema digestivo quebram a comida. Os gases intestinais, geralmente, contêm hidrogênio e metano, além de pequenas quantidades de outros gases, (como o sulfato de hidrogênio), o que pode causar o mau cheiro. Entretanto, a maioria dos componentes dos gases intestinais não tem cheiro”.

Tendo em vista que essa é uma revista respeitada no âmbito das Artes, da Cultura e da Criatividade, proponho, nesse texto, uma análise cultural do pum na sociedade brasileira.

Como visto na citação acima, o pum ou peido, (nomes populares para o ato de flatular), é precisamente o momento onde o gás intestinal é ventilado pelo ânus, sendo, naturalmente, invisível à olho nu. Por este motivo, estudiosos do flato desenvolveram como recurso a aplicação de substâncias em pó sobre o ânus para que o fenômeno pudesse ser observado e analisado cientificamente.

Tecnologia a favor do pum

Com o avanço do desenvolvimento tecnológico, câmeras térmicas passaram a ser utilizadas para analisar o ato, tendo em vista que o gás possui temperatura semelhante à temperatura corporal, que nos humanos varia de 36,1C a 37,2C. Com este aparato, é possível observar o comportamento do gás ao ser expelido violentamente pelo corpo, gerando dados impressionantes como:

“A velocidade de saída e a dissipação do pum na atmosfera podem variar de acordo com as condições do tempo, do espaço e também da força que você colocou para liberar seu filho gasoso. Em “condições ideais de temperatura e pressão”, o pum ganha liberdade a 11 km/h e permanece perceptível ao olfato por cerca de 10 a 15 segundos“. 

Sob este viés de interpretação, pesquisadores conseguiram expandir o horizonte do campo e estudar minuciosamente a tipologia do pum. Assim, estudiosos elaboraram categorias analíticas para o flato, dividindo-os a partir de características como amplitude do som produzido, duração da expulsão do gás, velocidade e pressão. Inclusive, alguns cientistas analisam a textura do pum a partir das nuances do odor produzido, sendo mais comum perceber notas de coliforme e taninos amargos, presentes também na salmonela.

Apesar dos dados precisos fornecidos por aparatos tecnológicos, o talco em pó continua sendo o principal recurso para analisar o fenômeno.

Socialmente, o pum não é bem visto na maioria das culturas.

Preconceituosamente associado ao mal cheiro, o pum pode ser considerado, em alguns casos, um ato obsceno. Sendo assim, peidar durante uma refeição, ou até mesmo próximo a pessoas que estão fora do convívio familiar pode gerar discórdia e ressentimento entre alguns atores sociais.

Existem relatos de pessoas que romperam relações de longa data após o amargor do flato arder os olhos em momento inoportuno. Outros relatos apontam que poucas amizades resistem à flatulência recorrente. Em casos mais graves, alguns indivíduos chegaram a ser agredidos ao serem identificados como autores de peidos públicos, ou seja, em ambientes compartilhados, como um ônibus na hora do Rush em dia de chuva.

Por outro lado, em algumas culturas o pum é sinal de respeito, e pode, inclusive, se tornar ferramenta de trabalho, sobretudo no campo do entretenimento.

O pum e a comédia

Em países como o Brasil, o ato de peidar possui, estranhamente, uma característica cômica. Dependendo do som produzido, é comum ouvir piadas com conotação sexual ou, até mesmo, que coloquem em dúvida a sexualidade do indivíduo que expele o gás.

Outra prática comum é pedir para que o interlocutor puxe o dedo do comediante, (que está com o gás armazenado em ponto de expulsão, aguardando apenas que a ação de puxar o dedo seja realizada). Assim, ao ter o dedo puxado, como uma válvula de escape, o comediante aciona o esfíncter, abrindo uma pequena passagem entre as pregas do ânus, o que reduz a pressão interna e libera o gás violentamente. Essa é uma técnica considerada clássica no Brasil, exigindo dissimulação e uma forte carga de atuação dramática do comediante.

Patrimônio Cultural Brasileiro

Em seu discurso de posse, a recém nomeada Secretária Especial de Cultura, Regina Duarte, reconheceu o valor cultural do pum, especialmente os que são realizados formalmente por profissionais do teatro, da comédia em pé e clowns. Em seu discurso, a secretária lista uma série de tradições populares e costumes cotidianos brasileiros para definir o que é cultura, e o pum brasileiro, é claro, não ficou de fora.

Ao exaltar o valor cultural do pum, a secretária criou uma polêmica no país, dividindo opiniões. Alguns, mais conservadores, acham que não fica bem uma mulher falar de pum em público, sobretudo em cargo público. Outros, especialistas, acreditam que a fala de Regina é extremamente precária, frágil e desinformante, pelo fato de que a Cultura se constitui como um campo do conhecimento, um conceito antropológico, não cabendo a ela portanto, distinções sobre o que é ou não cultura.

Apesar das controvérsias, o próprio Presidente da República reconheceu o importância do pum na cultura Brasileira. No país, inclusive, há boatos de que ele próprio tenha se submetido a uma cirurgia para fazer a reversão do trânsito do aparelho digestivo, ainda na adolescência, o que o permite expelir as substâncias intestinais (que normalmente sairiam pelo ânus) pela boca.


Frederico Lopes é Artista, educador, encadernador e escritor. Trabalha no Memorial da República Presidente Itamar Franco e é fundador da Bodoque Artes e ofícios.


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