O olhar na História da Arte

Há quem diga que os olhos são o espelho da alma. Talvez essa afirmação esteja relacionada ao fenômeno ótico que ocorre através das lentes de nossos olhares. Por outro lado gosto de pensar que os olhos são, na realidade, um atalho para a dimensão mais profunda e particular de cada pessoa.

Ao longo da famigerada História oficial da Arte, (em geral constituída por homens brancos, europeus e ricos), o mérito artístico de cada obra esteve, durante muito tempo, relacionada ao potencial de execução técnica do artista (já falamos disso por aqui, lembra?). Ou seja, quem representasse melhor determinado recorte da realidade, era consagrado no cânone. Ademais das discussões levantadas pela modernidade acerca das outras tantas formas de se produzir e fruir arte, gostaria de destacar algo relacionado a este cânone.

No caso da pintura, muito além de retratar de forma fiel os corpos no espaço, uma qualidade estimada nos artistas dizia respeito à sua capacidade de captar a atmosfera do momento, o sentimento do modelo e traços de sua personalidade. Sendo assim, sua sensibilidade precisava estar à flor da pele para que nada o escapasse. Nessa perspectiva, os olhos e o olhar se constituíam como peças importantes para fidelidade da representação artística.

Do mais enigmático ao solitário olhar, algumas representações artísticas conseguiram deslocar o expectador para o lugar onde as inquietações do artista, bem como da pessoa representada, dessem conta de alimentar a imaginação e provocar sensações diversas.

Mona Lisa del Giocondo, 1503. Leonardo da Vinci.

Alguns olhares trazem um ar misterioso aos corpos, como se não correspondessem exatamente ao restante da expressão da face. É como se se recusassem a obedecer o teatro das representações sociais, justamente por estarem conectados com a profundidade do ser.

Moça do Brinco de pérola, c 1665. Johannes Vermeer.

Há também olhares que trazem no brilho o ensejo da expectativa, ofuscada somente pela tristeza da angústia que a acompanha. Por isso alguns olhos brilham tristes, porque apontam para a camada insegura e inconsistente da incerteza.

A Dúvida de Tomé, 1599. Caravaggio.

Por outro lado, a descrença e a curiosidade também encontram o olhar como o ponto de partida para escapar do vazio de cada convicção. É assim que algumas certezas desmoronam, simplesmente por se colocarem diante da incredulidade do olhar.

Guernica, 1937. Pablo Picasso.

Além disso, o terror da guerra é capaz de extrair pelo olhar o pavor da desesperança. O iminente convite ao abandono da existência, se apresenta como a verdadeira face da crueldade, e, em toda sua imponência, transforma em fragilidade olhares que anseiam pela vida.

Nessa constante tentativa de fuga que a alma busca no olhar, podemos achar que o corpo é um lugar hostil à sua presença, onde vazio existencial é o cenário perfeito para que os olhos estejam bem abertos e a alma encontre em outros olhares o abrigo que precisa para ser acalentada.

O beijo, 1907 – 1908. Gustav Klimt.

Entretanto, creio que existem sentimentos que devolvem o olhar para dentro, preenchendo e aquecendo os corpos, para que sirvam de abrigo para a alma. Talvez ao sentirem-se preenchidos por estes sentimentos, os corpos se sintam fartos da própria presença, acolhendo a alma posto que transborda ao encontro de outros olhares.


Frederico Lopes é Artista, educador, encadernador e escritor. Trabalha no Memorial da República Presidente Itamar Franco e é fundador da Bodoque Artes e ofícios.


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