É meu, é seu, é nosso

Parto de minha experiência pessoal para falar ao mundo o que vejo, como assimilo e o que penso a respeito. Sendo assim, aqui, nesta escrita, não será diferente. 

O que passa diante dos meus olhos e prende a minha atenção, dando sossego ao pensamento, na maior parte das vezes, tem a ver com arte e cultura.  Desde a leitura desenvolvida muito cedo, até o aprendizado musical, através de bandas que participei, passagem por cinema e a incursão ao mundo da escrita poética, minha curiosidade e obsessão passaram sempre pelo viés artístico. Então, onde houve até hoje a possibilidade de me embrenhar pelos acertos e tropeços do fazer cultural, estava eu lá.

Em aspectos amplos posso dizer que tive em minha vida boas oportunidades de vivenciar o ‘espaço’ público de cultura, experimentando o que havia de possibilidades em cada momento. Sou grato. Sou fruto. E é exatamente a partir daí que parto para adentrar, compartilhar e, sobretudo, desenvolver o senso de cuidar do bem público cultural. 

Ocupo hoje um cargo público recém nascido, o de gerente do Departamento de Coordenação de Espaços Culturais, na Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage (FUNALFA). Administrando espaços de meu passado, hoje vejo com outros olhos locais como o Museu Ferroviário de Juiz de Fora, a Biblioteca Municipal Murilo Mendes e o Centro Cultural Bernardo Mascarenhas. Esses são templos de cultura nos quais vivi boa parte das minhas melhores experiências com arte. Há ainda a Casa de Leitura Delfina Fonseca Lima (antiga Biblioteca Regional Delfina Fonseca Lima) e o mais recente, o Teatro Paschoal Carlos Magno, cujas histórias ainda são descobertas para mim, mas que já me são fascinantes. Todos equipamentos estão dentro de uma mesma ‘salada’ cultural, cujo objetivo é o desenho de interseções possíveis entre os locais distintos.

Sou formado em Comunicação e já coloquei em xeque a escolha de um jornalista para ocupar uma gerência de espaços culturais. Mas a visão que aplico, quando penso nesses locais, está próxima do que vivenciei em todos os anos, dentro de alguns desses lugares. A formação vem de modo empírico em muitos momentos, buscando entender o que fazer sistematicamente para o passado se encaixar ao presente de modo lógico e impessoal. Embora desafiador, isso é possível em diversos momentos. A bagagem que trago se une ao trabalho e torna-se pública, perdendo minhas credenciais quando, por exemplo, aplico um aprendizado adquirido na minha infância em atividades voltadas para o público infanto-juvenil. Estou realizando, naquele instante, adequações e direcionamento ao conhecimento recebido anos atrás. Há um ciclo se fechando e outro abrindo durante essas trocas, fazendo crescer um vínculo social entre um novo cidadão ou uma nova cidadã e eu, já inserido em sociedade, de certa forma. Penso esse momento como uma possível evolução do pensamento cultural e geral. 

Sou tão cidadão quanto as pessoas que frequentam o locais pelos quais sou responsável. Posso também usufruir dos equipamentos e tenho neles o sentimento e o desejo parecidos como os dos espectadores ao meu redor. A sensação é nova a cada desafio, a cada evento e cada artista ou produtores que vêm conversar comigo cheios de ideias. Renova-se o oxigênio diante de possibilidades e, assim, o  trabalho é um ganho duplo, ultrapassando a questão de um salário. Afinal, o que se ganha mais consumindo cultura se não conhecimento e combustível para viver? 

Adquirir vivência cultural faz do povo mais preparado e com sentimentos desenvolvidos para conviver em sociedade de maneira saudável. Aprendi isso desde a época de escola, a Escola Normal, instituição estadual na qual cursei todos os meus anos de aprendizado. Ali pude perceber toda a variedade de oportunidades possíveis em relação à convivência com o outro e ser culturalmente apto a sentir e respeitar as diferenças existentes em uma sociedade tão discrepante  e diversa quanto a nossa. Viver em espaço coletivo de cultura é, portanto, uma forma de desenvolver se conscientemente enquanto parte de um todo. A cultura é a junção, a cola do povo, o que nos faz pertencentes e iguais, mas também o que nos distingue e dá individualidade. 

Suas manifestações em espaços públicos possibilitam a absorção das artes por grande parte da população. Garantir esse acesso aos meios culturais é o que dá chances à cidadã e ao cidadão a escolha de ser e pertencer ao que e como quiser, por isso é essencial cuidar e manter as portas abertas às mais diversas oportunidades e nos mais diferentes locais.

Não é, nem nunca será fácil garantir à cultura o seu status, o respeito e patamar devidos. De modo geral, a manifestação cultural através da arte, por ter em si um caráter mobilizador e, sendo produto da mente humana, é alvo certo de críticas e sanções em momentos de tensão ideológica, como o que vivemos no Brasil atual (embora tão retrógrado). Qualquer demonstração artística que fuja à ‘normalidade’ é a primeira a levar porrada por parte daqueles que não desejam a liberdade individual. E é exatamente isso o que não se pode retirar e que em que se baseia um fazer artístico: o pensamento livre e sem impedimentos às suas manifestações. 

É fácil compreender: Quando um bloco de carnaval que deseja estar em praça pública é alvo de sanções solicitadas pela sociedade “de bem”, quando um artista visual é impedido de exibir seus produtos por conta do desagrado a um nicho específico da comunidade, quando um filme não pode ser mostrado ao povo, por tratar de assuntos indigestos a alguns, retira-se a possibilidade de crescimento e amadurecimento de uma sociedade. Perde-se espaços para debates salutares, o que logo abre caminho para a intolerância e estagnação, num estado de ignorância geral.

Negar ao público a chance de escolha do que consumir, impedindo a livre manifestação em ambientes que são de todos, é impedir que resolvamos nossos erros do passado, é retirar ferramentas críticas e identitárias de um sociedade como um todo. Somos mais pobres sem essas oportunidades.  Por isso, o cuidado coletivo para mantermos em pleno funcionamento os equipamentos culturais públicos e a liberdade de quem o ocupa, é um dever a ser mantido sempre por cada um de nós.

Tive oportunidade de crescer enquanto humano justamente por ser um dos corpos a ocupar até hoje esses locais, não importa de que lado do balcão eu esteja.  Somos várias e vários, cada qual com infinitas possibilidades e conviver é essencial. Como escreveu Fernando Pessoa, através de Álvaro de Campos: “Toda a gente é interessante se a gente souber ver toda a gente / Que obra-prima para um pintor possível em cada cara que existe! / Que expressões em todas, em tudo! / Que maravilhosos perfis todos os perfis! / Vista de frente, que cara qualquer cara! / Os gestos humanos de cada qual, que humanos os gestos!”. 

Desejo, portanto, que o cuidado com o patrimônio cultural público seja um objetivo comum a todas e todos. Assim, manteremos viva e saudável a boa convivência entre iguais e diferentes. Se há uma maneira de começarmos a  diminuir a desigualdade em nossa sociedade, esse caminho começará pela cultura. 


Luiz Fernando Priamo é graduado em Comunicação Social e atuou em diversas frentes de trabalho nas áreas do audiovisual, poesia e eventos. Já foi parte de banda de punk, editou fanzines e organizou eventos de performances poéticas. Publicou o livro de poesias “involuntário”, em 2010 e co-dirigiu o documentário “Resguardo”, em 2015.


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