A Lógica Cultural da Fome no Brasil

No Brasil, com a abolição da escravatura, o problema da fome começa a ser desenhado pelo Estado a partir da primeira lei relacionada à propriedade de terra, que contribuiu diretamente para que os negros recém libertos não pudessem ter acesso à terra, pois as pessoas só poderiam adquiri-lá por meio de compra. Assim, desde o período colonial, a fome se configura como uma condição social preocupante. De 1877 a 1879 estima-se que mais de 500 mil pessoas morreram de fome no Semiárido brasileiro. 

As primeiras décadas do século XX

Entre 1915 e 1917 mais de 100.000 nordestinos morreram em um evento climático de grandes proporções que ficou conhecido como a grande seca. Em 1932, mais de 16.000 flagelados foram confinados em campos de concentração no Ceará. Em meados da década de 1960, diante de um Brasil agrário, pouco industrializado, a principal reivindicação era o acesso à Terra. Entretanto, o Estado brasileiro continuava tratando o problema da fome como uma situação natural presente na sociedade. Sobretudo em períodos eleitorais, onde as campanhas aconteciam na época da seca, o que aumentava a dependência do sertanejo com o estado e políticos.

Jango

Somente no governo de João Goulart a narrativa da luta pela reforma agrária foi incorporada como agenda política de campanha e de governo. Este é o primeiro momento em que ocorrem mudanças estruturais na distribuição de terras a partir de diálogos com as ligas camponesas, estruturando, ainda, uma política de abastecimento.

Ditadura

Com o golpe militar em 1964, a ditadura militar instituída, efetuou grandes investimentos na modernização dos meios de produção de grandes produtores rurais, o que o próprio regime denominou: como Modernização conservadora da agricultura, buscando acompanhar a revolução verde que ocorria ao redor do mundo. Por outro lado, as medidas adotadas foram alvo de crítica por diversos setores da sociedade, sobretudo por especialistas, pois os investimentos geravam recursos pra fora, ou seja, visavam a exportação, o que foi considerado, à época, uma espécie de agricultura de mercado. Além disso, lideres de movimentos sociais e camponeses que reivindicavam a redistribuição de terras alegando que produziam os alimentos e não tinham condições financeiras comprá-los, foram perseguidos, o que retardou as negociações sobre a reforma agrário no país.

Redemocratização e anos 90

Até a década de 90, a desnutrição infantil estava presente em grande parte dos grupos populacionais mais pobres, a fome era responsável pelo aumento da incidência de doenças infecciosas, contribuindo diretamente para desencadear uma sequência de eventos que levavam ao óbito. Em 1993, a taxa de mortalidade infantil chegou a 31,5 mortes a cada 1000 nascidos vivos menores de 01 ano. Esses problemas exigiram do Estado a adoção de medidas e investimento para mitigar suas causas. Além disso, um grande movimento de combate à fome eclodiu no país à época, liderado pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho. Assim, a partir da Ação da cidadania contra a fome a miséria e pela vida, Betinho coloca a questão da fome como algo que não se pode transigir. Através de sua atuação ele introjetou a ideia do direito à alimentação no âmbito das atividades fim do Estado.

Por esse motivo, o Governo Itamar Franco, em 1993, colocou como uma de suas prioridades o combate à fome. Partindo de Betinho, o governo pauta a fome como um problema nacional, incorporando a Campanha Nacional da Ação e Cidadania Contra a Fome, a Miséria, e pela Vida liderada por Betinho a partir da criação do Plano de Combate à Fome.

Destaca-se nesse cenário, a Campanha Nacional da Ação e Cidadania Contra a Fome, a Miséria, e pela Vida, conhecida como a Campanha da Fome, sob a liderança do sociólogo Herbert de Souza , o Betinho, sendo incorporada pelo governo de Itamar Franco, em 1993, com o nome de Plano de Combate à Fome e à Miséria. (SILVA, 2007, pag 89).

Por outro lado, ainda nos anos 1990, no Governo de Fernando Henrique Cardoso substitui o Plano de Combate a Fome e a Miséria pelo Programa Comunidade Solidária, que segundo Silva, Yasbek e Giovanni (2007) possuía a característica central de se firmar na focalização conservadora, orientando-se pelo combate à fome somente em alguns municípios brasileiros considerados mais miseráveis. Destaca-se também a extinção do Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA). Entretanto, ainda no Governo FHC, em 2001, foi criado o programa bolsa alimentação (decreto no 3934/2001) 

Primeira década dos anos 2000

Em 2003, no início do governo Lula, o programa FOME ZERO, foi implementado e o CONSEA foi reativado. 

O documento parte da premissa que todas as pessoas devem ter acesso, de forma digna, a alimentos saudáveis em quantidades suficientes que atenda às suas necessidades nutricionais. Assim, o texto do programa traz conceitos referentes à Segurança Alimentar e Nutricional; considera a alimentação como um direito humano, sendo dever do Estado promover a garantia do seu acesso adequado; apresenta dados estatísticos sobre a fome no Brasil e no mundo com pesquisas da FAO – Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (2000); Programa das Nações Unidas para Desenvolvimento no Brasil – PNUD (2000); Banco Mundial (2000) e Cúpula Mundial da Alimentação (1996/Roma); e faz uma síntese dos programas nacionais.

Ainda em 2003 o programa Bolsa família foi criado pela Medida Provisória 132, de 20 de outubro de 2003,[1] convertida em lei em 9 de janeiro de 2004, pela Lei Federal n. 10.836. que unificou os seguintes programas:

  • Programa Nacional de Renda Mínima vinculada à Educação – Bolsa Escola (Lei nº 10.219, de 11 de abril de 2001
  • Cadastramento Único do Governo Federal (Decreto nº 3.877, de 24 de julho de 2001
  • Programa Nacional de Renda Mínima vinculada à Saúde – Bolsa Alimentação (Medida Provisória nº 2.206-1, de 6 de setembro de 2001
  • Programa Auxílio-Gás (Decreto nº 4.102, de 24 de janeiro de 2002
  • Programa Nacional de Acesso à Alimentação – Fome Zero (Lei nº 10.689, de 13 de junho de 2003

A partir de 2010

O CONSEA foi indutor de dois marcos legais importantes no ano 2010, como a Emenda Constitucional (EC) numero 64, de fevereiro de 2010, que alterou o Artigo sexto da CF/1988 que tornou a alimentação um direito social. Com esse novo instrumento normativo, introduziu-se a alimentação no rol dos direitos fundamentais da população brasileira, com vistas a assegurar o DHAA; e o Decreto 7.272 em 25 de agosto de 2010, que instituiu a Política Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (PNSAN), consolidando-a de vez como uma política de Estado no Brasil. A PNSAN foi elaborada como estratégia de articulação das ações de SAN, envolvendo as políticas públicas de vários setores de governo e as instâncias de participação, acompanhamento e controle, com participação da sociedade. 

O Plano Brasil Sem Miséria (BSM) introduziu políticas complementares em 2011 com o objetivo ambicioso de erradicar a extrema pobreza no país. O Plano atua em três eixos: acesso a serviços (Educação, Saúde, Assistência Social e Segurança Alimentar); Garantia de Renda; e Inclusão Produtiva. Iniciou-se uma “busca ativa” para inserir famílias no Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal, com esforço redobrado para populações específicas: indígenas, quilombolas, extrativistas, pescadores artesanais, ribeirinhas, agricultores familiares, acampadas, assentadas da reforma agrária, entre outras. As famílias em situação de extrema pobreza passaram a receber um benefício variável para garantir uma renda mínima de R$ 70,00 por pessoa (valor que foi ajustado em 2014 para R$77,00).

Em 2013, o Brasil foi reconhecido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) como referência internacional no combate à pobreza e à desigualdade, em virtude da evolução desses indicadores entre 2001 e 2011.

Em 2014, o Brasil sai do mapa da Fome.

Infelizmente, a partir de 2018, políticas públicas importantes para o combate à fome no país começaram a ser neglicenciadas, com corte de verbas e, até mesmo, extinção de projetos e aparelhos estatais importantes, como o CONSEA.

Graças a pressão popular e de setores da sociedade atuantes em prol da causa do combate a fome, seis meses após seu fechamento o CONSEA foi reativado. Mas isso não nos serve de consolo. Estamos sob ataque.


Frederico Lopes é Artista, educador, encadernador e escritor. Trabalha no Memorial da República Presidente Itamar Franco e é fundador da Bodoque Artes e ofícios.


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