Museu e design social

Diante da intensificação das mudanças sociais, políticas e tecnológicas que o séc XXI inaugurou, o entendimento sobre o papel do Museu, bem como sua própria definição, estão sendo repensados e re-articulados para atender as novas demandas que surgiram. Por este motivo, devemos pensar no museu e seu papel no design social.

No dia 07 de setembro de 2019, o ICOM realizou a assembleia geral extraordinária (AGE) em Quioto, no Japão. Este encontro intentava votar uma nova definição conceitual para o Museu e como deve ser sua atuação a partir disso.

Definição de Museu de 2007

Segundo os Estatutos do ICOM, aprovados pela 22ª Assembleia Geral, Viena, a 24 de agosto de 2007:

“O Museu é uma instituição permanente, sem fins lucrativos, a serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, aberta ao público, que adquire, conserva, estuda, expõe e transmite o patrimônio material e imaterial da humanidade e do seu meio, com fins de estudo, educação e deleite”. (DESVALLÉES; MAIRESSE, 2013)

Esta definição é consoante com a ideia de uma museologia cujo centro é a ênfase no objeto museológico enquanto patrimônio cultural. Nesse sentido o museu é entendido como um instrumento ou função concebida pelo homem em uma perspectiva arquivística, de compreensão e transmissão (DESVALLÉES; MAIRESSE, 2013) . Digamos que um museu pode ser entendido, nesse sentido, como um lugar de Memória (Nora, 1984-1987; Pinna, 2003).

Contudo, na conferência trienal do ICOM, realizada em Milão, em 2016, um novo comité permanente foi designado para elaborar e apresentar uma nova definição. O Comité sobre a Definição de Museu, Perspectivas e Possibilidades (MDPP, 2017-2019) tinha como objetivo oferecer uma perspectiva crítica sobre a atual definição.

Por este motivo, foi preciso apresentar uma alternativa, com abrangência internacional (ICOM, Portugal, 2019).

Certamente preocupados com a atuação do museu no séc XXI, este comité conciliou um amplo diálogo e contribuições da maioria dos membros do ICOM no mundo.

Logo, para que a nova definição desse conta dos desafios por vir, um novo texto foi elaborado.

Definição de Museu para o Séc XXI

“Os museus são espaços democratizantes, inclusivos e polifônicos para um diálogo crítico sobre o passado e o futuro. Reconhecendo e enfrentando os conflitos e desafios do presente, eles guardam artefatos e espécimes para a sociedade, salvaguardam diversas memórias para as futuras gerações e garantem direitos iguais e acesso igual ao patrimônio para todos os povos. Os museus não são lucrativos. Eles são participativos e transparentes, e trabalham em colaboração ativa com e para várias comunidades, a fim de coletar, preservar, investigar, interpretar, expor e expandir os entendimentos do mundo, com o propósito de contribuir para a dignidade humana e justiça social, para igualdade mundial e bem-estar planetário.” Confira clicando aqui.

Nesse sentido, a nova definição parte do entendimento de que o museu é responsável por desenvolver aspectos concernentes à humanidade do ser. Ou seja, desenvolver a dimensão humana da existência.

Sendo assim, pautas relacionadas à problemáticas globais, são tratadas com o objetivo de serem mitigadas a partir de uma atuação ativa dos museus e outras instituições culturais em nível local. Por este motivo, ações voltadas para pesquisas em seus acervos que privilegiem temas como pautas identitárias, e desconstrução de narrativas hegemônicas excludentes são bem-vindas. Logo, a atuação da instituição museológica deve, segundo a nova definição, abordar temas como discriminação racial, visibilidade LGBTQI+ e pautas ambientais relacionadas à futuros sustentáveis. Consequentemente, essas abordagens devem ser tratadas em suas exposições, curadorias, eventos e, principalmente, observando, nas características da instituição, o mote para o tratamento dessas questões.

Assim, o museu, além de preservar seu acervo e atuar como um lugar de memória, contribuirá diretamente no design social, permitindo que todo indivíduo de sua comunidade seja inserido nessas discussões a partir de reflexões contextualizadas, desenvolvendo senso crítico e aumentando a profundidade do tratamento destes temas.

O que está por vir?

A aprovação da nova definição foi adiada pois seu texto, segundo o parecer do ICOM, se assemelhava mais à uma definição de missão do que de fato com o conceito do que é um museu. No entanto, é possível perceber que a preocupação principal do ICOM no últimos anos é alinhar-se à pautas tratadas pela ONU (Organização das Nações Unidas), fundamentadas na Declaração Universal de Direitos Humanos de 1948.

Finalmente, os museus assumem publicamente, em sua própria definição, o papel histórico da função social das artes: resistir a levantes autoritários e defender a cultura como substância plural e inalienável da existência humana. em sua diversidade.

Referências:

DESVALLÉES, André; MAIRESSE, François. Conceitos-Chave da Museologia. São Paulo: Comitê Brasileiro do Conselho Internacional de Museus: Pinacoteca do Estado de São Paulo : Secretaria de Estado da Cultura, 2013.

O design social cria soluções para a pobreza’, afirma curadora de museu em Nova York . https://oglobo.globo.com/rio/o-design-social-cria-solucoes-para-pobreza-afirma-curadora-de-museu-em-nova-york-10496274

Sobre a proposta da nova definição de Museu: http://icom-portugal.org/2019/09/10/sobre-a-proposta-da-nova-definicao-de-museu/

ICOM anuncia a definição alternativa de museu que será submetida a votação: http://www.ibermuseos.org/pt/recursos/noticias/icom-anuncia-a-definicao-alternativa-de-museu-que-sera-submetida-a-votacao/

Definición de museu: https://icom.museum/es/actividades/normas-y-directrices/definicion-del-museo/


Frederico Lopes é Artista, educador, encadernador e escritor. Trabalha no Memorial da República Presidente Itamar Franco e é fundador da Bodoque Artes e ofícios.


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