Fica, vai ter bolo

Eu às vezes tenho problema com meu nome. Não que eu não goste dele, considere estranho, ou feio. Quando eu era mais nova, eu não gostava, e o motivo era único: não existia um apelido com ele. Durante o meu crescimento, todo o possível que resulte numa pessoa de 1.60m, gastei grande parte do meu tempo pensando em como os amigos poderiam me chamar de forma mais carinhosa. Do meu nome mesmo se derivaram alguns poucos, quando eu não estava mais ligando para isso, depois da adolescência. 

Outro fato que me perturba em nomear alguém, é o tamanho da responsabilidade do significado que uma pessoa carrega desde não saber quem é. Na minha opinião, os nomes deveriam ser dados após algum tempo de convívio, ou melhor, quando a criança já fosse capaz de expressar sua personalidade. No meu caso, o mesmo anjo que mandou o poeta ser “gauche na vida” se apresentaria aos meus pais e me daria o nome de “Preguiça”, o que para mim, seria ótimo, pois eu não teria necessidade de passar por ⅓ dos sacrifícios que eu passo todo dia para explicar a minha inércia e falta de necessidade de muita interação, e do mesmo lado, vencer meu próprio nome e sair brilhando por aí. 

Só que esses dias eu saí de casa, fui visitar minha tia. 

Declaração um tanto quanto comum, para qualquer pessoa que se habilite a tal processo devastador, que é sair de casa. 

Nessa ocasião, minha mãe foi primeiro. Quando ela chegou, antes de me avisar se tinha vencido o trânsito cruel de qualquer cidade nas férias escolares, ela me falou: “Vem! Tem bolo”. Diante essa afirmação, procurei dentro de mim todos os subterfúgios para calar a minha própria consciência e enfrentar a temível odisseia que me aguardava, que seria chegar ao outro lado da cidade. 

Eu amo bolo. 

E acho incrível a ambiguidade estrutural que o substantivo “bolo” tem na língua portuguesa. “Bolo” pode ser de chocolate, e com isso me refiro aos doces, de carne, me referindo aos salgados. Pode ser bolo de dinheiro, qualquer quantidade amontoada, alguém que descumpre um compromisso, e ainda alguma confusão. 

Rapaz, e que bolo  , viu! 

Eu não sou nenhuma sumidade na cozinha, mas quando me atrevo, sempre faço bolo, doce . Eu acho incrível como que um alimento à base de massa de farinha, com açúcar e ovos ganha uma forma muito grande e legal, porque não é arroz, arroz incha e amolece, bolo não, bolo é  farinha, de  trigo, de milho, de batata, maisena ou qualquer outra , um  adoçante, alguma liga, seja ovos ou glúten ou amido, gordura que pode ser manteiga, margarina ou óleo, purê de fruta e algo líquido, seja leite, água ou suco. Pode até ser que eu devesse admirar assim qualquer massa, mas acho que por bolo ser tão presente na vida, ele é muito mais admirado que qualquer outra coisa que tenha os mesmos passos, mas com o resultado diferente. 

Talvez me fascine a mistura, porque todos aqueles ingredientes diferentes que das primeiras vezes que a gente se atreve se pergunta “O quê?” como se fosse aquela pedra que a gente bate sempre a cabeça, mas não machuca a gente. 

Isso me fez lembrar uma conversa que eu tive com um grande amigo ano passado, eu estou com todas as minhas conexões mentais ativas tentando fazer isso ficar menos pessoal possível, mas por favor, eu já falei do meu nome, meus gostos e minha tia. Já temos um nível de intimidade que eu ando pensando que nas próximas vezes eu já posso falar em como eu me sinto quando eu lembro da separação do Exaltasamba ou até do impacto que a repentina mudança de nome do Roupa Nova causou na minha memória afetiva. Somente coisas sérias, lógico.

Enfim, a pergunta era “como voltar a confiar”. Ele não me explicou nada que eu não soubesse, mas tudo que eu sempre esqueço, dizia ele que nossas vidas são um emaranhado de ligações, muitas vezes a gente sofre por nossas próprias escolhas, outras por termos essas ligações, sofremos muito mais que gostaríamos, igual naquela brincadeira da cama de gato, onde existia uma forma certa de buscar o barbante com os dedos, para sair o desenho certo na mão da outra pessoa e poder continuar a brincadeira.

Por isso eu acho que somos um constante bolo. Ou melhor, somos uma eterna pâtisserie, onde cada processo é um bolo e todos dotados de capacidade de exposição. Cada passo é um passo da receita, as vezes é uma receita solo que a gente coloca na vitrine para todos que passam e morre de orgulho de tê-lo feito. Outras vezes damos conta de mais de um bolo, e quando numa conversa rápida sai um bolo tão maravilhoso que todos se perguntam a receita e a gente nunca lembra? Existe também a receita que é compartilhada, onde surgem ingredientes novos, e a gente bate até com mais cuidado pois não sabemos a receita.  Tem também a possibilidade do bolo solar, e isso é muito difícil de aceitar, porque a gente nunca sabe onde errou, aí a gente questiona a nossa capacidade, mesmo tendo feito tantas coisa maravilhosas, já que os ingredientes estavam todos certinhos, e ele precisava tanto dar certo.

A gente só não pensa em como os bolos solados são importantes, eles requerem da gente um recomeço, simplesmente por não existir a possibilidade de não tirar nada de qualquer fase, a gente sempre tira, e olha, nem sempre vem um bolo lindo, e nem um bolo lindo mostra os calos na mão do confeiteiro, só que eles trazem a luz do dia uma nova capacidade, mostram o quanto a gente pode aprender a escrever nossa própria receita e assim como sempre diz um cantor chamado Belo: Recomeçar.  Com os bolos aprendemos a jogar com a nossa capacidade de entregar a tempo, aprende a lidar com uma receita tem que ser específica, sem erros, nesse momento lançamos fora toda e qualquer ansiedade e apresentamos em ponto, perfeito.

A gente faz, e faz mais. Tudo isso, e só depois para gente entender quando com um sorriso largo alguém chega e fala: “Fica, vai ter bolo.”  


Aurora Rodrigues é estudante de literatura e anda escolhendo quem quer ser, mas não encontrou saída para a alergia a amendoim, a paixão por jujuba e o ódio por guaraná Antártica. Quanto ao resto, tem usado o próprio nome para tentar refletir o renascer dentro de si


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