Bacurau e o(s) Nordeste(s) que querem se ver (Parte 1)

O maior fenômeno do cinema nacional do último traz para a tela a subversão, descolonização e pluralidade que tanto faltam ao se falar da região

Em uma cena emblemática de “Bacurau”, longa co-dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, dois sudestinos – um paulista e uma carioca – estão em uma sala com um grupo composto por estadunidenses e um alemão. Conforme estes apresentam seus planos perversos para a comunidade que dá título ao filme, também fazem questão de estimular o desconforto nos sudestinos, ao forçarem-nos a ver um vídeo (gravado por um drone em forma de disco voador) deles assassinando dois homens que investigavam outros assassinatos cometidos pelo grupo. A morte dos dois não apenas é o mote para que Bacurau comece a se dar conta de que está sendo atacadapor forças desconhecidas, como também gera, através do desconforto do casal sudestino, um embate simbólico que reflete as variadas hierarquias de opressão que se traduzem na forma desdenhosa como os “gringos” os tratam, a partir do momento em que estes tentam justificar seus atos.

-Estes dois que vocês mataram… eram seus amigos?

-Amigos? A gente não mata amigos no Brasil. Mas não, a gente não é desta região.

-De que região vocês são?

-A gente é do sul do Brasil. Uma região muito rica, com colônias alemãs e italianas. Somos mais como vocês.

Mas para os estadunidenses, estes sudestinos/sulistas não podem ser como eles, pois não são brancos. Os lábios e o nariz da mulher carioca a “denunciam”; estão mais para mexicanos brancos (mas não norte-americanos ou europeus brancos). Uma das estrangeiras até se refere ao paulista como um “latino bonitão”. Mas os dois jamais serão como eles. E como logo descobrem, ao receberem uma saraivada de balas ordenadas pelos misteriosos superiores dos estadunidenses, nunca foram nada além de um acessório, objetos de manipulação para atacarem a cidade.

[link da cena: https://www.youtube.com/watch?v=-qdLSiLmNX8]

Longe de mim atestar que ao contrário do que os sudestinos pensam, somos todos brasileiros, pois como um amigo meu crítico dessa cena me lembrou, isso não muda o histórico de tensões, conflitos e violências raciais impostas pelos brancos do Sul e Sudeste à população majoritariamente negra do Nordeste (ou também dos brancos nordestinos aos negros de sua própria região). Haja ou não um recorte racial proposto por Mendonça Filho e Dornelles nessa cena, o que se há de certeza um recorte histórico e geográfico. Pois as falas enunciadas pela mulher carioca e o homem paulista, em sua vã tentativa de serem aceitas por esses estrangeiros, apenas reflete um pensamento e discurso estruturados há séculos e que estão entranhados nas problemáticas relações entre o Norte/Nordeste e o Sul/Sudeste.

E foi essa cena que me fez pensar “meu Deus do céu, esse filme é como meu TCC transposto para a tela”.

Sobre colonialismos e colonialidades 

Entre os séculos XV e XVI temos mudanças significativas afetando a Europa: a derrota dos mouros na Península Ibérica, a expulsão dos judeus e a expansão atlântica. Estes três povos – mouros, judeus, ameríndios (e posteriormente os escravos africanos) – são “exteriores” à ideia de uma cristandade europeia. 

A implantação do sistema capitalista não seria possível sem as relações coloniais estabelecidas pelo Ocidente europeu no contexto das grandes navegações e das suas ações em relação a novos e velhos povos que não fossem os seus. Para o sociólogo peruano Aníbal Quijano, tem-se aí uma espécie de “colonialidade do poder”: na América, portugueses e espanhóis definiram relações de trabalho com base nas questões de raça, oprimindo e escravizando (quando não exterminando) povos ameríndios, e mais tarde subjugando povos africanos para trazê-los como escravos.

O colonialismo multiplicou as formas de discriminação a fim de manter as estruturas capitalistas ainda vigentes, e tamanho é seu sucesso que ainda hoje em dia temos dificuldade em reconhecer o quanto ele e a colonialidade permanecem entranhados, quase invisíveis, nos nossos modos de vida e de consumo. Mesmo na esfera intelectual é possível notá-lo, na medida em que os pós-modernos discutem as diferenças coloniais como lugares passivos, como se estes povos não pudessem se expressar por si mesmos.

E é essa lógica que “Bacurau” quebra. Ele traz a discussão a partir de quem está naquele local, não um olhar externo e marcado pelo desconhecimento. É por isso que é tão indissociável falar do filme com propriedade na medida em que se vive no Nordeste – e eu ainda nem entrei no mérito da multiplicidade de Nordestes que há, em oposição à visão de uma região homogênea que se difundiu por aí (mas logo mais falarei sobre isso).

A forma como os sudestinos forasteiros do filme se enxergam reflete exatamente o ponto de vista dos criollos, brancos que nasciam nas Américas, mas que se sentiam ligados à Europa, ao Velho Mundo, como se pertencessem a dois continentes e a duas culturas. Era uma dupla consciência branca, já que os escravos africanos e os ameríndios jamais receberiam o mesmo tipo de tratamento. E se até no futuro próximo em que “Bacurau” se passa os criollos ainda se mantém presos ao mesmo pensamento, dá para ver então que ainda estamos longe de termos superados os colonialismos e as colonialidades.

O paulista (Antonio Saboia) e a carioca (Karine Telles): “criollos”

Os “Quatro Brasis”, a Região Concentrada e as periferias

Mas afinal de contas, por que se dão essas tensões geográficas no Brasil? Elas estão enraizadas no próprio tamanho continental do país e nas formas como esse território foi sendo ocupado. De início a população concentra-se na faixa litorânea, com alguns bolsões no interior. Até que no século XIX, o desenvolvimento do maquinário e da tecnologia, bem como dos meios de transporte (à época as ferrovias) passa a ditar os vetores de crescimento do país.

O centro de poder econômico (e, portanto, político) desloca-se do Nordeste da cana-de-açúcar para o eixo Rio-São Paulo e seu café e suas indústrias. As relações no interior do eixo se intensificam (ainda que São Paulo supere o Rio de Janeiro em população e importância econômica), já que as fábricas geram um tecido industrial que também move as relações em sociedade. Mas a relação deste centro de poder com as periferias é desigual, lançando-se as sementes das disparidades entre as regiões.

Mesmo com o poder político sendo realocado para o Planalto Central após a II Guerra, o eixo Rio-São Paulo ainda detém o poderio econômico, beneficiando também os estados do Sul. A este conluio Sul/Sudeste os geógrafos Milton Santos e María Laura Silveira denominaram de Região Concentrada, onde os “meios técnico-científico-informacional” se instituíram com mais facilidade e sucesso por conta da industrialização e urbanização precoces, que a colocaram na dianteira em relação às outras regiões. A Região Concentrada é, para Santos e Silveira, um dos “Quatro Brasis”; os outros três sendo o Nordeste, o Centro-Oeste e a Amazônia.

É interessante notar como “Bacurau” dá poucas pistas sobre o cenário sociopolítico deste futuro em que se passa. Em determinado momento vemos um vídeo sobre a personagem Lunga que se passa num canal intitulado “Brasil do Sul” – e quando os sudestinos se apresentam aos estadunidenses, afirmam serem do Sul. Assim o dizem apenas para facilitar ou de fato houve uma separação, uma reorganização das regiões do país? Algumas perguntas para as quais não teremos respostas. Confesso que queria ver mais da construção deste universo e a falta dessas respostas me frustrou um pouco (assim como as figuras por trás dos planos dos estadunidenses), mas entendo que a proposta do filme não é essa. O cerne da questão é outro, e rende as discussões mais importantes que tenho travado no meu TCC.

Mas isso é um papo para a próxima semana.


Vinícius Oliveira Rocha é um paulista de nascimento e baiano de coração que atualmente reside em Aracaju-SE, onde faz graduação em Jornalismo. É aficionado por cinema, música, literatura, TV, cultura pop e mobilidade urbana, e autor do livro de fantasia infanto-juvenil “O Destruidor de Mundos”.


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