15. Reflito, existo, resisto

Caminho pela Paulista. Tarde de domingo. Apesar do dia, a vida ferve em Sampa. Encontro todos os tipos, para qualquer gosto, qualquer situação que a vida ofereça. Ando de cabeça erguida, olhando para os arranha-céus que riscam a paisagem com sua concretude, cidade de solicitudes estancadas. Percebo que estou sozinho em minhas reflexões, celular no bolso, desplugado das redes, avesso momentaneamente a instantâneas informações que muitas vezes não nos dizem nada. Como conseguimos chegar até aqui, penso eu? Como pudemos fazer com que as coisas chegassem a esse ponto? Será que as mesmas pessoas que conseguiram construir esse muro virtual trazido para a realidade estão felizes, estão conscientes do que construíram, através de uma falsa carcaça democrática? Não sei. Só entendo o que eu vejo: um mendigo com blusa verde-amarela surrada gritando que comunistas têm que arder no inferno, uma senhora alheia a isso fumando um cigarro barato ao lado olhando para as nuvens que correm devagar sob um vento fresco da tarde que se põe, um adolescente cheio de piercings e tatuagens andando de skate pela avenida entre os carros, um entregador de comidas de aplicativo correndo com sua bicicleta em busca do parco dinheiro para alimentar sua família (que nunca terá condições de usar sequer qualquer delivery para esse fim), um homem alinhado de terno apressado com cabelo laqueado e celular em punho franzindo os cenhos preocupado com algo. A cidade não para. E meus pensamentos seguem o fluxo dessa urbe intensa, frenética, anestésica. Vivo me perguntando como, num país tão diverso como o nosso, ainda podemos excluir dos aparatos governamentais tanta gente, tanto povo que necessita de ajuda? Enquanto me imagino como um meu irmão, dois garotos passam de mãos dadas, um deles com o cabelo longo e rosa. O mundo pulsa, a vida segue seu fluxo. Por quanto tempo poderemos aguentar que uma mulher negra seja discriminada num banco, que um admirador de nazistas possa exercer um cargo de chefia no governo brasileiro, que uma atriz namoradinha do Brasil negue os seus e se volte contra os próprios companheiros de profissão? O que fizemos de errado? Como fazer para consertar isso? Preciso me cuidar. Enquanto as nuvens na minha cabeça me dominam, quase sou atropelado por um senhor careca, que não gosta nada de ser atrapalhado por um pedestre desatento. A noite cai. E tudo que eu consigo pensar é se conseguiremos viver dessa forma sem adoecermos, sem termos para onde ir a não ser a alienação que nos deixa imunes a esse buraco negro. Será que podemos? Podemos entrar em nossa bolha alienatória e esquecermos que estamos vivendo dentro deste contexto sem sermos atingidos? Para se manter a sanidade, é preciso se desligar de vez em quando. Mas até quando? Qual o limite entre a alienação e o desprezo pelo próximo? A dor é profunda e não consigo me conter. Começo a chorar em pleno coração de Sampa. O que fizemos? Como deixamos tudo isso acontecer? Sinto-me culpado. Eu vivo para mim mesmo, para os meus e dane-se o resto? Olho para os céus e por mais que eu olho só vejo cinza e nuvens, a escuridão. Com os olhos marejados, coração constipado, sobrevivente de demônios interiores, avisto um prédio onde estão projetadas frases enormes na parede lateral que se alternam: “Após teto para educação e saúde, Congresso analisa deixá-las sem piso”; “Sinais de alerta de fascismo” e outras tantas frases. Paro por uns instantes. Isso aqui é um ato de resistência. Um facho de esperança penetra em minhas retinas como essas frases, que constroem dentro de mim a ideia de que podemos, cada um do seu jeito, criar alternativas para sermos melhor do que tudo isso que encontramos, para projetarmos em nós mesmos os alicerces de algo em que todos, sem exceção, estejam inseridos. Sento no chão, junto ao passeio e me encosto no poste. A vida tem sim, solução.


Darlan Lula é doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Escritor, autor de cinco livros, entre prosa e poesia. www.darlanlula.com.br


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