14. Tudo bem

Abriu os olhos pesarosos com dificuldade. Ao acostumar-se com a claridade entrando pelas frestas da persiana, sentiu no dorso da sua mão esquerda um incômodo. Um robusto pernilongo sugava com deleite e precisão clínica o seu viscoso sangue. Podia ver a cirúrgica agulha natural fincando-se em sua entranha, tornando o bicho ainda mais gordo. Num átimo, com a mão direita, desferiu um golpe certeiro no invasor, esmagando-o e fazendo escorrer pelos seus poros antes limpos o vermelho intenso de seu interior. Esmagado. Sucumbido. Era o seu aniversário. Exatamente há um ano ele perdia alguém que se jogou no abismo. No dia do seu aniversário. O destino lhe entregara, naquele dia, ao final da festa, a notícia de que sua filha havia pulado do 17º andar, mergulhando todos na saudade de seu sorriso largo. Olhou o relógio de cabeceira. Eram nove e vinte e sete. Às dez horas, teria que estar em sala de aula. Professor em fim de período. Inúmeros afazeres. Pequena pausa naquele dia de oximoros. Bilhete da esposa na porta da geladeira, mensagem do filho no celular, a ajudante da casa num sorriso sincero e abraço afetuoso. Por dentro, consumia-se como nuvem que se forma para a tempestade. Só pensava na filha e em suas últimas palavras com ele: “Tudo bem, pai. Vida que segue”. Por que não a ouviu àquela noite? O seu incômodo estava visível, rosto melancólico. Mas ela sempre foi imediatista. Sempre quis tudo ao seu tempo. Os colegas do Departamento tinham preparado uma surpresa. “Parabéns pra você, nesta data querida, muitas felicidades…”. Um bolo, uma vela com uma enorme interrogação – sua vida ali, exposta para qualquer um. Ele sorria feliz. Adoravam-no. Era um exemplo de superação. Câncer derrotado. Justamente ele que precisava tanto de sua voz. Mas nada disso o abalou. Superou. Só não podia com aquilo. Enganavam-se todos! Em aula, mais uma festa dos alunos, todos queriam cumprimentá-lo, festejá-lo, aninhá-lo. Os votos estavam dados, e a aula retomava a sua linha de raciocínio. Almoço com a esposa, rápido, mas pleno de simbologia. Um beijo terno de anos de amor ininterruptos, felicitações íntimas e discretas. À noite, fariam um pequeno jantar em família. Era um dia cheio. Correu para a reunião do Conselho Universitário, dez minutos atrasado. Regozijaram-se pela presença do decano aniversariante do dia. Seus cabelos brancos algodoados demonstravam o quanto de respeito ele amealhara durante esses anos todos de compromisso. A votação foi dura naquela tarde. No final do dia, uma chuva rala e bafienta atravessou a cidade, molhou seu corpo cansado, sua alma impregnada. Não saía de sua cabeça a imagem dela. Um ano e tudo voltava com muita força, com muita intensidade. O cardápio da noite fora escolhido especialmente para agradá-lo. Vinho tinto chileno cabernet para atiçar o seu paladar, os afagos e palavras doces de mulher e filho. No quintal, sentado em uma cadeira de vime, ao lado de seu labrador, acolhido pela quentura branda da noite, ele pensava. O tempo estava fechado, nuvens carregadas, e uma fenda entre as nuvens denunciava um pequeno facho luminoso, insistente na penumbra. Vida que segue.


Darlan Lula é doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Escritor, autor de cinco livros, entre prosa e poesia. www.darlanlula.com.br


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