Sobre hacker, arte e outras questões: em busca de brechas para se pensar às necessárias mudanças do mundo.

A série de TV estado-unidense Mr. Robot (2015-2019) dirigida por Sam Esmail, estrelada por Rami Malek, conta a história de Elliot, um Engenheiro de Segurança Cibernética que trabalha para uma  das maiores empresas tecnológicas do mundo, a E-Corp (a empresa é fictícia, mas acredito que qualquer comparação com a Google não é mera coincidência…).

Não é meu objetivo analisar a série ou entrar em detalhes a respeito da forma como a trama se desenrola (sim, eu recomendo que você assista. Considero a melhor série que já assisti na vida. É uma obra de arte, que harmoniza muito bem forma com conteúdo), mas gostaria mesmo de introduzir a discussão que quero travar nestas poucas linhas. Elliot pode ser chamado de “hacker”, uma vez que com suas habilidades em programação quer resolver os “problemas do mundo”. Hackers querem resolver os problemas do mundo. 

A palavra hacker ainda representa um tabu para a sociedade atual, que e a emprega em diferentes contextos. Ora para definir um expert da tecnologia, ora um criminoso digital. Para diferenciar Hacker de quem comete crime digital, contudo, utiliza-se a palavra Cracker. Cracker é aquela pessoa que usa seus conhecimentos para violar sistemas ou redes de computadores. 

Já para compreender a figura do Hacker é preciso se reportar à segunda metade do século XX, quando jovens estudantes, participantes do Clube de Ferromodelismo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT nos EUA), começaram a se dedicar à programação dos primeiros computadores que chegaram ao MIT. Tais jovens, então, “começaram a desenhar programas e máquinas a partir de uma nova linguagem que começava a ser escrita” (PRETTO, 2010) composta por zeros e uns, ou seja, a linguagem de programação. 

O movimento se disseminou e podemos falar da constituição do que chamamos “cultura hacker”, formada inicialmente por programadores que acreditavam no poder da computação para sim, transformar o mundo, democratizar a sociedade com paixão e engajamento diante das ações e espírito de colaboração entre pares. 

Steven Levy, em 1984, no livro “Hackers: Heróis da Revolução”, organizou 7 preceitos para o que ele chamou “Ética Hacker“. Esses preceitos segundo Levy (2001), faziam parte do cotidiano de quem frequentava o já citado Clube de Ferromodelismo do MIT. Dentre esses princípios, gostaria de destacar a defesa pela liberdade de acesso a tudo o que se possa ensinar no mundo, bem como a defesa do compartilhamento irrestrito de toda informação e de todo conhecimento, que dizem respeito ao intresse comum da sociedade. Dentre os demais, destaco ainda o princípio relacionado à possibilidade de se criar arte e beleza com o computador [apesar da dureza da máquina]. Assim, como a artesã que esculpe uma peça de cerâmica, o fazer hacker (ou hacking) pode ser visto como algo que demanda paciência, cuidado, beleza, criatividade (LEVY, 2001). 

Ampliando o conceito de hacker, o filósofo finlandês, conhecido pela sua obra “A Ética Hacker e o Espírito da Era da Informação”, Pekka Himanen (2001) esclarece que “é possível ser hacker sem ter nada a ver com computadores” e recupera a definição do Jargon (um conhecido Dicionário Hacker) para definir o que seria hacker: “perito[/a] ou um entusiasta de qualquer área. É possível ser hacker em astronomia, por exemplo.” (apud HIMANEN, 2001, p.8). 

Nesse sentido, é possível ser hacker também nas artes e por isso, me foi impossível não  trazer como exemplo aqui neste texto o projeto Transborder Immigrant Tool desenvolvido em 2007, pelas artistas Micha Cárdenas, Amy Sara Carroll, Elle Mehrmand, e pelos Professores Ricardo Dominguez e Brett Stalbaum, do Departamento de Artes Visuais da Universidade da Califórnia, San Diego e integrantes do grupo Critical Art Ensemble (CAE, 1987). O grupo explora as interseções entre arte, teoria crítica, tecnologia para a promoção de justiça social e ativismo político na rede, atuando no Ciberespaço, mas também fora dele por meio de uma prática chamada “Desobediência Civil Eletrônica” inspirada no conceito de “Desobediência Civil” de Henry Toreau (1849), “para quem é possível realizar uma oposição legítima a um Estado considerado injusto a partir de atitudes pacíficas, capazes de perturbar a sua ordem” (SANTOS, 2011).

O Transborder Immigrant Tool funciona por meio de um software denominado walkingtools, de um aplicativo (ambos desenvolvidos pelos membros do CAE) e de telefones de baixo custo com antenas de GPS. Os telefones com os aplicativos eram dados aos imigrantes mexicanos que, ilegalmente, tentavam atravessar a fronteira para os EUA e muitas vezes morriam pelas adversidades do deserto. O objetivo era oferecer ajuda humanitária às pessoas que inevitavelmente atravessam as fronteiras.

Quem estava na peregrinação do “sonho americano” encontrava, com ajuda da tecnologia, indicações de locais onde poderiam buscar por água, alimento, além de maneiras de se proteger das intempéries e de fugir de animais silvestres. Mas também recebiam poesias, a fim de tornar a travessia menos dolorosa. Além disso, os celulares não poderiam ser rastreados pelas autoridades, mas enviavam dados aos seus criadores, sendo possível traçar a rota de imigração.

O projeto  ganhou a atenção da mídia por promover uma discussão sobre arte e seus limites, sobre política, sobre o uso da tecnologia para fins de justiça social etc. Mas, como era de se esperar, támbém porque seus criadores foram investigados por colaborarem com processos ilegais de imigração. 

Em uma sociedade que se mostra tão intolerante com a diferença, é preciso se inspirar nos exemplos e encontrar brechas para modificar a realidade vigente, quem sabe se juntando àqueles que querem “resolver os problemas do mundo”?

Referências citadas:

HIMANEN, Pekka. A ética dos Hackers e o espírito da era da informação. Editora Campus: Rio

de Janeiro, RJ, 2001.

LEVY, S. Os heróis da revolução: como Steve Jobs, Steve Wozniak, Bill Gates, Mark

Zuckerberg e outros mudaram para sempre as nossas vidas. Trad. Maria Cristina

Sant’Anna São Paulo: Évora, 2012./ Hackers. Dell Publishing Co., 2001.

PRETTO, Nelson. Redes Colaborativas, Ética Hacker e Educação. Educação em Revista, Belo

Horizonte, v.26 , n.03 ,p.305-316, 2010.

SANTOS, Anne D.S Clinio dos. Mídias táticas no Brasil: dinâmicas de informação e

comunicação. Dissertação (mestrado) – Universidade Federal do Rio de Janeiro / Instituto

Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia. Programa de Pós-Graduação em Ciência da

Informação, Rio de Janeiro, RJ, 2001.


Elisiana Frizzoni Candian é professora de Arte na Rede Pública de Ensino do Estado de Minas Gerais.  Formada em Artes pelo Instituto de Artes e Design da Universidade Federal de Juiz de Fora, mestra em Artes pelo mesmo instituto. Doutoranda em Educação também pela UFJF. Estuda as interseções entre Educação e Cultura Hacker. 


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