As Guerras são feitas por água e comida

O argumento de hoje começa com duas histórias aparentemente muito distantes, mas próximas em sua moral e sua relação com os dias de hoje. Uma se passa nos campos de arroz da China, em 1830. O outro, nos anos 1990, na Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp).

No século XIX, um emissário do primeiro-ministro do Reino Unido foi ter com um secretário do Imperador da China. Ao encontrá-lo, o secretário mostrou-lhe todas as plantações de arroz que se perdiam no horizonte chinês, além de pequenas criações de animais, raízes e hortaliças, que eram de posse dos camponeses e rendiam, ao Imperador, tributos em troca de sistemas logísticos (estradas, moinhos, barragens) e proteção. Questionado se havia forças militares em defesa do Imperador, ele disse que sim, mas que as revoltas internas eram pequenas e não exigiam muito. A saber, a China dispunha de poucos arqueiros, escassos navios e sequer a pólvora, criação chinesa, era usada como arma.

Olhando para tudo aquilo, o emissário de Londres questionou: mas por que não permitir que os camponeses troquem entre si, aumentem o preço de seus produtos, enriqueçam, ao invés de permanecerem sob proteção de uma elite mais rica? O secretário respondeu: aqui é o reino da harmonia. Todos são ricos ou todos são pobres, conforme a vontade dos céus. Qual a lógica de uma família trocar seus produtos por mais do que vale, estrangeiro? Respondeu o britânico: se há mais batatas e menos cenouras, estas últimas valem mais que as primeiras. Rebateu o chinês: se há mil batatas e duzentas cenouras para duas famílias, então o Imperador faz com que haja setenta e cinco cenouras com cada família e cinquenta com o Império. Quatrocentas batatas com cada família e duzentas com o Império, de modo que todos estejam iguais, produtivos e seguros. E como é no seu pais: são todos iguais, produtivos e seguros?

A historinha da dinastia Qing teria dado início à dominação inglesa na China, pois daí os britânicos teriam percebido que teriam ali uma imensa nação econômica e militarmente fraca a dominar. E muito alimento a receber. Por outro lado, permite ver o quanto os chineses já estavam, dois séculos atrás, preparados a assimilar o socialismo real como nenhuma outra.

A segunda ocorreu em São Paulo. Chefes de duas tribos indígenas, um do Alto Xingu e outro da calha do Madeira, receberam, no Dia Internacional do Índio de 1998, uma equipe do Globo Reporter, tradicional programa de reportagens em profundidade das noites de sextas-feiras na TV Globo. Primeiro, ainda na tribo, apresentaram seus alimentos vegetais, divididos em hortas sazonais, de modo que uma tinha o solo descansando da última colheita, outra tinha a terra preparada para futuro uso, outra estava em fase de plantação e uma quarta estava a ponto de ser colhida. Numa palhoça próxima, um reservatório pequeno.

Apresentaram-lhes, então, a ideia de conhecer o maior reservatório de comida do mundo, o Ceagesp, em São Paulo. Aceitando a empreitada, os chefes entraram no avião da emisorra e viajaram milhares de quilômetros para encontrar toneladas e toneladas de grãos, raízes, frutas, carnes, temperos e especiarias, flores, alimentos e plantas infindáveis que se espalhavam por quilômetros quadrados de atacado. Os indígenas assustaram-se, quase se perderam em meio ao labirinto de banquinhas e vendedores, sem perceber que eram usados pela reportagem num tom de humor, usando e abusando do estereótipo do índio ignorante. 

No entanto, quando um dos chefes avistou um grupo de crianças que esperava comidas caírem do chão para pegá-las, perguntou: por que esse menino come as comidas do chão? O repórter respondeu: é porque ele tem fome. O outro chefe, então, imediatamente respondeu: que fome? O que não falta aqui é comida. E, com suas próprias mãos, pegou dois sacos de frutas de uma banquinha próxima e deu ao menino. Depois, disse ao repórter que tinha entendido o que era aquilo e não se interessava mais pelo convite.

As duas historias revelam o quanto culturas concebem o alimento de forma diferente da nossa, ocidental. Assim como elucidam a distribuição da comida como riqueza fundamental, de onde derivam todas as outras. De séculos em séculos, sociedades diferentes e incomunicáveis desenvolveram seus métodos de se organizarem e garantirem suas seguranças física (o que começa com a descoberta do fogo e termina com a formação dos grupos armados) e principalmente alimentar. Hoje, acrescenta-se a estas a informacional. 

No entanto, no encontro de uma com outra civilização, a busca pela garantia da segurança alimentar, numa ou duas culturas que não admitem a partilha, leva ao conflito. Na necessidade de repelir a ameaça do outro pelo controle do alimento, um grupo se proclama “a civilização” e busca se impor, baseado em valores morais importantes para manter a união e a identidade do povo, igualmente diferente dos outros valores morais do agora inimigo. Na verdade, a moral e os valores são o pretexto, o que vale é a riqueza. O alimento.

Assim, num mundo que em que Ocidente é cristão e moldado pelos valores da Europa e dos Estados Unidos, é latente a necessidade de se negar o modo organizacional do oriente, seja este a China ou o Oriente Médio. Hoje, militarmente débil em relação aos Estados Unidos, o Irã é a bola da vez. Lá existe o alimento mais importante da humanidade, e ele não é o valioso açafrão, e sim o petróleo.

Uma lástima que tudo seja culpa da (in)segurança alimenta em nossa sociedade. No fim das contas, é por comida e água, que chegam à nossa mesa por meio de infindáveis cadeias que têm por motor inicial o petróleo e o gás, que existe todo conflito. Ou alguém duvida de que norte-americanos e europeus comem melhor (à parte a discussão nutricional), que africanos, árabes e latino-americanos?

As guerras, ao fim e ao cabo, são por água e comida.


Hélio de Mendonça Rocha é jornalista. Atua como repórter de meio ambiente e direitos sociais para a revista Plurale e como analista político para os jornais Brasil 247 e El Siglo de Chile. Foi correspondente internacional na China em 2019.


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