Das Crueldades e dos Chocolates

Ninguém tem coragem de falar, mas eu falo. Se você vive amplamente imerso no contexto digital, já leu a nossa frase de início, no geral ela vem acompanhada de uma opinião muito pessoal, impopular ou não, dependendo do que se fala. Eu não vou te abrir um guarda chuvas quanto às minhas opiniões , mas juro que, como sociedade, deveríamos abrir o inconsciente coletivo e abranger o espaço de discussão sobre aparência, a sensação de coisa velha e ainda a importância das uvas passas , a capacidade gigante que o halls preto tem de formar novos viciados e o quanto açaí é ruim. Coisas que ninguém tem coragem de falar, mas eu falo.

Outro fato que ninguém tem a coragem de falar, se refere a um dos quadros mais cruéis da vida, o banho de chocolate.
Não. Eu não tô falando de um novo tratamento estético que tem ganhado os salões mais requintados e “in” do Brasil. Tô falando do banho de chocolate. Aquele, que faz os bombons, pães de mel. Melhor, tô problematizando o banho de chocolate.


Porque? Pra mim, o banho de chocolate é o típico retrato da falta de responsabilidade humana. Você tira uma coisa de um estado que aparentemente ela estava bem, a não ser que você tenha a ouvido reclamar, é desavisadamente, da forma mais inesperada possível, você afoga ela num mar de chocolate. Você se torna de um momento pro outro, friamente, um fazedor de tsunami de chocolate. Para o seu próprio deleite.
Isso me lembra todo o filme “A fantástica fábrica de chocolate”, quando Willy Wonka é chamado pelo Príncipe Pondicherry para construir um palácio de chocolate. E o castelo, Querido Leitor, não era mero delírio fetichista, igual a Anne Hathaway de mulher gato no filme do Batman, era um castelo de cem aposentos, todo construído de chocolate. Também não era o capricho de um chocólatra, o Príncipe planejava morar no castelo. No meio da Índia. É essa cena que eu quero que você imagine, pois é isso que estou problematizando. Você, naquele palácio que derreteu, é o doce no meio do banho de chocolate.

Eu não tô tentando fazer ninguém ficar com nojo de chocolate, pois nesse momento estou escrevendo acompanhada de um, mas se imagine, no meio daquela água densa, o cheiro do chocolate, aquela açúcar toda grudando no seu corpo. E quando começar a endurecer? É uma experiência perturbadora, tanto pro doce quanto para quem estiver de baixo do Castelo.

Pareço exagerada? Ou você que nunca havia pensado em quão cruel tudo isso pode ser?

E se a gente transportar as situações? Assim como um músico transpõe a partitura pra todos os instrumentos de uma orquestra. Eu quero chegar em algum lugar.

Muitas vezes somos ingredientes separados, bons separados ou um bom e outro não tão bom (para todas aquelas formas de usar bom pra não falar ruim.) As vezes somos um ingrediente e um leite condensado, (menos damasco, damasco fica ruim com leite condensado), que separados são bons, mas juntos, resultam nessas infinidades de brigadeiros surgidos no final dessa década, dados pela geração gourmet. As vezes é só o banho de chocolate.

E se agora você entendeu que por banho de chocolate eu tô falando sentimento, parabéns. O banho de chocolate real não tem como ser de uma forma diferente. É mergulhar e pronto, esperar que o trabalho esteja feito, mas pra sentimento a gente precisa de responsabilidade. Quando envolve outra pessoa, é injusto joga-la numa panela de sentimento líquidos e misturados, que passaram pelo processo de corte e de fogo, que saíram da ebulição e quando você achar que tá bom, tira.

Fazer uma festa no seu palácio de chocolate no meio da Índia, é crueldade quando você sabe que tá calor. Ninguém sai de casa com uma boia ou uma máscara de mergulho

O doce que sai do banho de chocolate, precisa secar, separado e distante. Sofrer a ação do vento, do tempo. Só que o doce que sai do banho de chocolate, não sai mais forte. As vezes, nem do banho de chocolate ele sai direito. Tem doce que desmancha dentro do banho, tem doce que quebra na hora de secar, tem doce forma bolha de ar, tem doce que no primeiro toque, quebra, tem doce que pega chocolate demais e fica impossível de morder.
Tudo isso é sair de uma enchente. De chocolate.

É estar perdido, sem entender nada, sem saber como respirar. Sofrer a ação do tempo e endurecer. É quebrar no primeiro toque, desmanchar no meio da vida.

O doce foi feito pra isso.

A gente não.


Aurora Rodrigues é estudante de literatura e anda escolhendo quem quer ser, mas não encontrou saída para a alergia a amendoim, a paixão por jujuba e o ódio por guaraná Antártica. Quanto ao resto, tem usado o próprio nome para tentar refletir o renascer dentro de si


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