12. Matilda

A feira fervilhava naquela manhã. O céu de brigadeiro anunciava um sol abrasador ao meio-dia. Para Felipe, seria um domingo como outro qualquer se não estivessem tão presentes nele os acontecimentos da semana anterior. Seria um dia a mais vivido naquela cidade do interior das Gerais, ele indo à feira acompanhando seu pai na rotina sempre presente dos finais de semana.

O despertar de sua consciência aconteceu quando percorreu a galeria dos açougues no galpão, cena percebida como dantesca por quem não entende a realidade de se ter carne abatida na soleira do desjejum que não necessita de refrigério, uma vez que é toda adquirida antes de o sol abrasar as moleiras lá fora. Carnes à mostra, peças expostas sacolejando nos ganchos, moscas zumbindo ao redor. O tempo se preenchia pela ampulheta ambulante das peças nos ganchos ao atrito das mãos dos vendedores. As vivas gotas do sangue escorrendo pelos corpos mortos daqueles animais formavam pequenas manchas vermelhas e mornas no assoalho do estabelecimento.

Ao sentir aquele cheiro acre que recendia no ambiente, Felipe recordou-se dos desagradáveis instantes da semana anterior, em que seu irmão mais velho o acordara.

O pai complementava o orçamento criando porcos nos fundos do quintal de sua casa. Quando os notava nutridos e bojudos, cheios de futuros bacons, passava-lhes o reverso do machado na testa, antes persignando-se três vezes, tradição de família.

A porcada era a alegria dos filhos do lavrador, menos para o menino mais velho, 14 anos no lombo, que ficava com a parte mais ingrata do serviço: recolher os restos orgânicos da vizinhança para a lavagem da suinaria.

Na véspera do acontecido, podíamos avistar o garoto ao entardecer, com um velho carrinho de mão e um balde improvisado de 50 litros em cima e os irmãos logo atrás, saltitantes e festivos, recolhendo pequenas pedras no chão irregular e terroso do trajeto. Nina era a mais eufórica, completara 7 anos e ainda ganhara um bônus ao achar uma pequena boneca nos entulhos de uma construção. Está certo que estava sem roupa, cabelos ralos e desgrenhados, vitimada por estar maneta, mas, mesmo assim, era uma boneca, e, a partir daquele instante, era sua. Segurava-a com o zelo de uma mãe e a religiosidade de uma beata ao amparar a sua hóstia. Felipe preenchia o seu vazio com as pedrinhas no bolso.

– Vem logo! Vocês querem vim, né? Não vou ficar esperando ninguém. Gritava impaciente o moço do carrinho de tempos em tempos olhando para trás.

Felipe e Nina, então, aprontaram uma correria de arrastar chinelos e levantar poeira. Mas o momento mais esperado por eles e o motivo daquele cortejo era a entrega da lavagem aos porcos. Enquanto o ranzinza irmão recolhia os despojos nutritivos para preencher as valas, Nina e Felipe, com os queixos apoiados nos vãos da cerca do chiqueiro, olhos fitando o infinito, observavam atentos a agitação dos animais, quatro adultos, sendo duas fêmeas, uma delas com cinco leitõezinhos com os focinhos colados em seu corpo sugando o leite materno. Ao perceberem a chegada da comida, eles se alvoroçaram, inclusive a pachorrenta mamãe, que se levantou bruscamente causando rebuliço nos pequenos e dando uma bela patada em um deles, que guinchou um sonoro reclame. Todos ali tinham nome, menos, ainda os filhotinhos. O maior chamava-se Rabicó, as duas fêmeas, Xuxa e Matilda, e o outro, Lipe, nome dado pelo primogênito para atiçar as ventas do garoto Felipe. Matilda era a preferida, o xodó da família. Corpo rosado, porte airoso, olhar de candura, tinha um jeito com as crianças que chegava às raias da humanidade. Encostava a sua narina achatada nos meninos todas as vezes que eles abeiravam a cerca. Em troca, recebia um afago em sua cabeçorra. Grunhia e afastava-se cheia de si carregando o seu viçoso corpo.

Do umbral da porta de casa, o velho lavrador, rosto sulcado e maltratado pelo tempo e pela lida no campo, mãos enfiadas na cintura, ruminava um resto de maçã e fitava aquela cena doméstica preocupado com o efeito da notícia que daria ao jantar. No pomar, fundos da casa, um sabiá-laranjeira trinava harmoniosamente escondido entre as folhas do cajueiro. A noite começava a despontar no horizonte salpicado de nuvens avermelhadas, um vento fresco soprava e varria o quintal de forma desordenada, arrefecendo um pouco o calor do dia. Nina e Felipe perceberam o agitar das folhas e começaram a correr por entre elas numa ciranda inventada com o conúbio com a natureza. A cena se desfez quando ecoou a voz grave do pai chamando-os para o jantar. Na cozinha, a mãe atiçava o fogo soprando as brasas, pedaços de lenha combustados e ardendo sob uma panela fumegando uma sopa com postas de batatas e miúdos de frango. No centro da mesa, preparada e organizada para um jantar em família, uma cesta com pães fatiados era um convite ao caldo temperado da iguaria.

Quando todos já estavam mais que satisfeitos, farelos de pão espalhados pela mesa, pratos tão limpos como se tivessem sido lambidos, o velho levantou-se arrastando a cadeira, olhou-os piedosamente antecipando o sentimento provocado e desferiu o golpe tão doloroso para todos, principalmente para Felipe e Nina. Não havia alternativa. O momento era de dificuldades. Teriam que abater um porco para gerar renda e aguentar o restante da estiagem daquele período. Matilda era a única com os requisitos necessários. Já se encontrava gorda o suficiente. Seria muito rentável na feira daquele domingo.

Nina olhava para o pai com seus grandes olhos redondos e amendoados, boca entreaberta, cara de assustada; Felipe começou a fungar e se afastou do grupo; um silêncio pairou sobre aquela casa alguns instantes, como se todos já se preparassem para a última homenagem àquela com quem conviveram como mascote da família desde que Nina a recebeu miudinha, um mimo da madrinha que veio visitá-la quando completara 4 anos.

A noite foi convulsa. Uma casa chorosa e uma criança com febre emocional dormiam inquietas. Às quatro horas da manhã, como era de costume, o lavrador acordou, cutucou o filho mais velho, que o ajudaria na missão desconcertante. O menino, a pedido de Felipe, também o acordou. Nina dormia agarrada à mãe, preocupada com os tremores da filha.

Felipe acompanhou o irmão até o chiqueiro. O amanhecer começava a querer despontar, carregando toda a atmosfera de uma coloração cinza chumbo. Matilda já estava de pé, focinhando o horizonte à procura de afagos. O menino, com uma corda entre as mãos, procurava a melhor maneira de amarrar a porca e conduzi-la para o local onde o pai sempre abatia as suas crias, ao lado de uma bananeira cheia de cachos e com folhas frondosas que se erguiam ao céu como num lamento aos sacrificados. Felipe, com um olhar sonolento e melancólico, observava o irmão amarrar Matilda pelo pescoço e em seguida retirá-la do chiqueiro junto dos seus, numa última passagem pela pequena porteira do local. A outra ponta da corda fora amarrada num tronco de árvore próximo à bananeira. Como num ensaio teatral, surge num átimo temporal o velho lavrador com o machado à mão, olhar circunspecto revisando o percurso a seguir. Felipe aproxima-se, ajoelha-se de frente para Matilda e envolve-lhe com os seus braços finos e curtos, fecha os olhos marejados por alguns instantes, a porca grunhe levantando o seu focinho achatado até encostá-lo no queixo do garoto, que a solta abrindo os olhos, deixando escorrer uma gotícula de lágrima amparada pela abóbada do crânio da porca, mesmo local onde, no minuto seguinte, após persignar-se, o lavrador desferiria o golpe com o reverso do machado que a deixaria inconsciente. No momento exato deste acontecimento, Felipe já havia corrido para os fundos do pomar, subido no pé de tamarindo, escondido de todos, soluçando a saudade e chorando a dor de sua primeira perda.

Matilda guinchou tão alto quando foi atingida que provocou uma revoada de pássaros abrigados nas árvores, Nina estremeceu em meio ao seu torpor e suas alucinações e Felipe sentiu uma dor tão lancinante no peito que só a entenderia anos depois. Depois disso, com a ajuda do filho mais velho, o lavrador consumaria o acontecimento pegando uma faca em sua algibeira, ponta afiada incrustada na parte anterior do pescoço da porca, que, deitada ao chão, soltaria uns leves grunhidos remexendo as suas patas traseiras enquanto uma pequena bacia colocada logo embaixo do corte retinha o líquido de avermelhado intenso que consumiria aos poucos os seus lancinantes momentos de vida. A partir daquele instante, com o último fiapo de vida exaurindo-se de Matilda, começariam os preparativos para torná-la uma das mais apetitosas carnes do mercado municipal: primeiro a queima do seu corpo e a consequente raspagem de seus pelos torrados; em seguida o corte longitudinal em sua barriga, com a perícia e experiência de anos do velho lavrador; tudo no porco era utilizável, inclusive as suas vísceras, matéria-prima para linguiças.

Por volta das sete horas da manhã, o carrinho de mão seguia pelas mãos do velho lavrador em direção ao mercado para a feira de domingo cheio de fartura para aquela família pelo menos por um mês inteiro com o resultado da venda.

Felipe, que gostava tanto de acompanhar o pai, não teve ânimo naquele dia. Mastigava um pão dormido na cozinha. Enquanto isso, Nina tomava um banho amparada pela mãe.

No dia seguinte, antes do amanhecer para a escola, Felipe acordou assustado. Tivera um sonho estranho, seu corpo reagia de forma diferente, o volume do short estava alto, sentia umas coceiras esquisitas na região pubiana. Correu para o banheiro, trancou-se, acendeu a luz, retirou o short e o jogou no soalho de cimento. Sua cueca estava suja de um líquido consistente, gosmento, saído pela primeira vez de suas entranhas.


Darlan Lula é doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Escritor, autor de cinco livros, entre prosa e poesia. www.darlanlula.com.br


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