O Xadrez e a Vida

Certa vez, em uma competição de xadrez, em algum lugar longínquo de minha infância, competi contra outras quatro crianças. Perdi a primeira partida. Fui disputar o terceiro lugar, mas meu adversário foi embora. Ganhei por W.O. 

Se há quatro meses alguém me perguntasse se eu sabia jogar xadrez, eu responderia como boa parte das pessoas iniciadas no xadrez na infância e que não se aprofundaram no jogo: “Eu sei mexer as peças. O cavalo faz isso, o peão faz aquilo, o objetivo é derrubar o rei adversário”. 

Hoje essa resposta é diferente. Ainda estou muito longe do alto nível dos grandes mestres enxadristas, porém consigo afirmar atualmente que “Sim, eu sei jogar”.

No xadrez existem fundamentos basilares e boas práticas que norteiam o bom andamento dos jogos: “Controlar o centro”, “desenvolver as peças”, “proteger o Rei”, “conectar as torres”, “ocupar colunas”, “conectar peões”.  Aprendi mais do que movimentos e regras. Aprendi princípios.

Neste ano, decidi estudar não apenas as estratégias, mas também a história do xadrez. Os grandes campeões do passado, as partidas históricas, os filmes biográficos, as mudanças de paradigma e tudo isso compôs a criação de um novo hobbie, que aliás, tem me ensinado bastante sobre a vida.

Tal qual numa partida de xadrez, podemos viver a vida apenas conhecendo as regras básicas e os movimentos protocolares estabelecidos pela sociedade, contudo, o que determina a qualidade de nossa vivência neste plano são os princípios pelos quais nos guiamos.

Tal qual uma torre que se movimenta para frente e para o lado e o bispo se move em diagonais, podemos viver a vida seguindo retas aleatórias, apenas tomando cuidado para não quebrar regras, contudo, sem uma estratégia definida, as chances de cometer erros evitáveis aumentam consideravelmente.

O pequenino peão é limitado em amplitude de movimentos, mas com uma carta na manga: transformar-se em uma peça diferente ao chegar na última casa.

Paulo de Tarso escreve que no último dia “todos seremos transformados”.

É impressionante a capacidade humana de se transformar e tornar-se outro mediante as circunstâncias da vida. 

Semelhanças e paralelos não faltam.

Termos como “sacrifícios táticos”, “garfos”, “raio x”, “cravada”, entre outros, tornaram-se comuns no meu cotidiano e apesar das semelhanças apontadas aqui, há uma grande diferença entre a vida e o xadrez.

A vitória no tabuleiro vem ao deixar a mais importante peça do adversário encurralada. Tomba-se o Rei, vence-se o jogo.

Entretanto, vencer na vida nada tem a ver com derrubar o adversário. Aliás, ao contrário do xadrez, a vida é vivida com parceiros e não com antagonistas.

Vencer na vida é ser o rei do próprio jogo, conviver bem nas diversas dimensões sociais, seja no âmbito rural, rodeado de cavalos, ou no urbano, entre duas grandes torres. Entre singelos peões ou nobres damas, não se esquecendo do viés espiritual, aconselhando com sábios bispos.

Este é um ensaio sobre o xadrez e a vida, mas mais que isso, é um confessionário. Aprendi a duras penas que meu maior adversário na vida sou eu mesmo e, comigo, sigo jogando uma longa partida pensada. Cada movimento busca esgotar as peças do egoísmo e da autossuficiência. Busco um xeque-mate em meu orgulho pessoal. O certame tem sido complicado, mas é um jogo que vale a pena ser jogado!

Guardo até hoje a medalha de bronze daquele campeonato de xadrez. Ela me faz lembrar que é possível vencer até quando perdemos. E que, por mais clichê que pareça, a verdade é clara: o importante é competir.

Meu rating atual nas plataformas online mal passou de 1100 e ainda é baixo para os padrões de alto rendimento. Encontre-me no lichess.org (erlantostes) e vamos marcar uma partida!


Erlan Tostes é pai da Agatha e esposo da Pri. Os dois únicos ofícios que valem a pena a menção.


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