O Lado Feio do K-Pop

Toda vez que surge um novo fenômeno adolescente na música e na indústria cultural, é de conhecimento comum que de alguma forma aquilo afetará os hábitos e  dos fãs. O kpop, nascido nos anos 90, vindo de uma iniciativa do governo federal para impulsionar a cultura e turismo coreanos, recentemente teve seu boom internacional. O BTS ou bangtan sonyeodan na romanização do coreano, também conhecido como bulletproof boys, é a maior boyband  da atualidade, deixando para trás One Direction, de 2010 e Backstreet Boys, dos anos 90. 

As performances milimetricamente aperfeiçoadas, as maquiagens, as roupas, os vocais, tudo é pensado na mais detalhada perfeição. Para isso, os artistas fazem audições para entrar em empresas de entretenimento e treinam por anos para conseguirem estrear. Alguns, mesmo depois de se prepararem por tanto tempo e se afastarem de todas as pessoas que amam, veem o sonho ir embora e nunca conseguem fazer o seu debut.

Apesar do kpop, na visão dos fãs, trazer o melhor da Coreia do Sul para o mundo e também aumentar o turismo e o conhecimento cultural, ele também tem o poder de evidenciar o que as pessoas tem de pior: o ódio. A fama do gênero musical mostra o racismo e xenofobia do povo ocidental mas algumas vezes traz a tona também os preconceitos dos internautas coreanos. Os chamados knetz  podem ser extremamente duros e ofensivos em seus comentários, isso afeta diretamente os artistas e, indiretamente, os fãs. Na maioria das vezes, as falas dos knetz não são sobre o trabalho dos artistas, e sim refletindo os padrões de beleza coreanos.

Os padrões de beleza do kpop trazem algo um pouco diferente dos padrões que são vistos na indústria musical americana ou europeia, prezando-se sempre muito pela delicadeza e, principalmente, pela magreza dos artistas. Esses padrões afetam homens e mulheres, mas as cantoras são mais atacadas quando fogem deles. Artistas já foram proibidas de estrearem ou se apresentarem por não se encaixarem numa faixa de peso específica, por exemplo.

O padrão base para os coreanos se constitui por: pele clara, olhos grandes e redondos, feições finas e delicadas. Isso se torna difícil quando se pensa que cada pessoa, mesmo com o biotipo de uma mesma etnia, é diferente. Além disso, os padrões de peso são extremamente restritos, e se comparados com o cálculo do IMC (Índice de Massa Corporal), nada saudáveis. A tabela abaixo mostra os padrões coreanos de peso, para homens e mulheres:
 

Como os padrões de beleza afetam as artistas

Mesmo sendo muito talentosas, algumas idols (termo que se refere aos artistas do kpop), sofreram – e sofrem – com os ataques sobre a sua aparência. A primeira edição do reality de sobrevivência, “Produce 101” da emissora MNET, deu a 11 garotas a chance de estrearem como um grupo temporário, o IOI. A participante Kang Mina, uma das ganhadoras, atualmente integrante do grupo Gugudan, foi vítima desses ataques. Tudo começou quando, em uma das primeiras apresentações de Mina, ela apareceu com um vestido sem mangas, que mostrava seus braços. Foram deixados uma enxurrada de comentários maldosos sobre o peso da menina, que na época tinha apenas 16 anos. O objetivo da performance era mostrar a fofura das participantes, o que, segundo os técnicos, Mina tinha de sobra.
 

Depois que a cantora viu sua própria performance e os comentários, tomou decisões drásticas para perder peso. Mina passou bastante tempo sem usar nenhuma roupa que mostrasse os braços e parou de comer, totalmente, sobrevivendo apenas com água gaseificada. Nessa época, Mina passou a pesar apenas 42 quilos. Quando estava no grupo IOI, mesmo visivelmente mais magra, ainda recebia hate constante. Em suas promoções com o grupo temporário, mantinha um peso saudável, mas era chamada de gorda.

Quando debutou em seu grupo atual, Gugudan, ela ainda recebia muitos comentários maldosos. Ela tinha perdido muito peso, e os knetz falavam que ela havia perdido o seu charme, seu aegyo (palavra coreana para fofura). Na época de lançamento da música Ice Chu, da subunidade OGUOGU Gugudan, os fãs ficaram muito preocupados com a magreza da menina. Apesar disso, ela recebeu muitos comentários maldosos por ter emagrecido. Os knetz pareciam nunca ficarem satisfeitos com a aparência de Mina.

Atualmente, Mina recebe menos comentários sobre sua aparência. Ela parece mais saudável. Mas ela não é a única que sofreu com esses comentários. A cantora principal e líder do grupo TWICE, Park Jihyo, sofre desde antes do debut do grupo até hoje, sobre seu peso, suas roupas, suas atitudes, e mais recentemente, sobre o seu relacionamento com o idol Kang Daniel. As cantoras Sulli (F(x)) e Goo Hara (KARA) que faleceram em 2019, ambas por suicídio, foram, por muito tempo vítimas do cyberbullying constante. Elas falavam sobre como aquilo era prejudicial a elas e a quem escrevia. Quem comentava nunca estava satisfeito, quando a cantora usa de seus charmes para ser fofa, é atacada, quando usa para ser sexy, também é atacada e, às vezes, assediada. Assim como Jimin Park, cantora solo, que depois de postar uma foto em seu Instagram, teve que pedir para que parassem de assediá-la.

Mas o que o Brasil tem a ver com isso?
O Brasil, assim como vários outros países, vem acompanhando o crescimento do kpop e o número de fãs tem crescido cada vez mais. Os kpoppers se espelham na força de vontade e trabalho duro de seus idols. Por isso, é normal que se espelhem também na aparência inalcançável dos mesmos. São artistas que treinam, às vezes, mais de 10 horas diárias, comem pouco e aguentam muitos comentários para conseguir fazer seus fãs felizes. Esses fãs devem tomar cuidado e ver que eles não devem querer ser iguais aos ídolos, pois nem eles se beneficiam do modo de vida que vivem.

Mas não é só isso. A cultura do cyberbullying está muito presente na vida dos adolescentes brasileiros. Tanto do lado dos que fazem os comentários ofensivos quanto dos que recebem. O Brasil é o 2° país que mais comete o cyberbullying. Quando o assunto é kpop  muitos brasileiros ainda não estão acostumados com a moda ou simplesmente não gostam. Por isso, existem muitos comentários maldosos contra os artistas e até contra os fãs, algo que não deve ser considerado natural. Os padrões de beleza brasileiros são diferentes dos coreano, apesar de ambos se espelharem nos padrões arianos. Muitas vezes, podem ser encontrados comentários xenofóbicos e racistas contra os artistas coreanos na internet. Apesar da diversidade do povo brasileiro, as pessoas ainda veem os povos não brancos (negros, asiáticos, indígenas) como diferentes. O Twitter virou ponto especial de discussão entre quem gosta e quem não gosta do kpop. Lá muitos comentários são levados como brincadeiras, mas muitos são ofensivos e se comparam aos dos knetz.

Muitos fãs brasileiros usam roupas, maquiagens e aprendem as coreografias de kpop. É normal que se comparem aos seus ídolos coreanos, mesmo que vivam vidas diferentes, com biotipos diferentes e culturas diferentes. Os kpoppers  brasileiros estão do outro lado do mundo em relação a Coreia do Sul, e não deixam o sonho de serem mais próximos de seus idols para trás. A boa lição do kpop é não desistir de realizá-los, a má é “A que preço?”.


Carla Abreu é aspirante à jornalista apaixonada por contar histórias, seja em palavras ou em fotografia. Eu amo música, séries e problematizo tudo, até o que eu gosto. Tentando viver fora da bolha e fora da caixa.


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