A Loucura Resistirá

A arte, bem como quaisquer formas de engenhosidade, incomoda aos que vivem de explorar o mediano dos seres humanos, visto que instiga e busca fazer com que encontrem a verdade por detrás dos muitos véus e máscaras que constituem a nossa sociedade. 

Esta é a suma da obra “Memorial do Convento”, que lançou o escritor português José Saramago. A obra conta a história de Blimunda, uma mulher simples, dona de casa, órfã de pai desconhecido e mãe proscrita para Angola pelo Tribunal do Santo Ofício da Inquisição; Baltazar, soldado português aleijado em combate contra a Espanha; e Bartolomeu, padre que tem o sonho de criar uma máquina capaz de voar. No início do século XVIII, no reinado de Dom João V e sob os olhares vigilantes da Igreja, ambos acompanham a construção de um convento dedicado ao nascimento do varão da Casa de Bragança, erguido sob mão de obra quase servil, com ouro explorado do Brasil por negros escravizados. 

Blimunda tem o incrível dom de, sempre que em jejum, ver o que há por trás de corpos e mentes das pessoas, herdando a sobrenaturalidade da mãe, que ouvia vozes. Ela ajuda Bartolomeu a criar sua máquina voadora por meio do conhecimento do éter, substância obtida do melhor dos sentimentos humanos, os quais ela é capaz de enxergar e dar-lhes consistência por meio de pedras, amuletos, todo o tipo de superstições que deem demonstração do desejo e da vontade humana, sobretudo aquelas que encontram-se próximas à morte e anseiam pela vida. O éter assim obtido, segundo os planos do padre, vai erguer sua invenção aos céus. Baltazar, homem simples e raso, porém dedicado ao próximo, é o sustento dos dois. Entretanto, ambos despertam a fúria dos poderosos da sociedade portuguesa por se atreverem a enfrentar as leis de Deus e ousarem voar, atraindo olhares da Inquisição.

A obra de Saramago é uma crítica a uma sociedade que, não muito distante daquela em que vivemos, persegue e condena aqueles que ousam dissuadir da ordem vigente, não apenas por questionamentos morais e comportamentais, mas igualmente pela arte e pela inventividade. O que o autor aponta como a não aceitação social do conhecimento, da criatividade e da inventividade, foi objeto de questionamentos desde o nascimento da modernidade, quando o filósofo germânico Erasmo de Roterdã fez o seu Elogio da Loucura, afirmando que da não racionalidade pode nascer a imoralidade e a ameaça à ordem social, de um lado, mas pode igualmente emanar a crítica para o melhor conhecimento da sociedade, ao se poder enxergar o ser verdadeiro por trás das máscaras, tal como Blimunda. 

“Suponhamos o caso de que alguém quisesse arrancar as máscaras dos atores que desempenham o seu papel num palco, revelando aos espectadores as suas verdadeiras e reais faces. Não estará essa pessoa estragando toda a ficção cênica, merecendo ser preso como louco furioso e expulso do teatro a pedradas? [..] quem era rei, torna-se de repente canalha; quem era deus, na mesma hora revela-se homúnculo. Cortar a ilusão significa mandar pelos ares todo o drama, pois precisamente o engano da ficção cênica é que encanta os olhos do espectador. […] Assim, no palco, tudo é postiço, mas a comédia da vida não se desenvolve de outro modo”, argumentava Erasmo. 

Derrubando máscaras sociais, sejam elas ontológicas, isto é, da relação do ser humano com o mundo e os outros seres, o que inclui a moral e o comportamento, ou cosmológicas, isto é, a concepção (neste caso, atravessada pela moral) que as pessoas têm das estruturas físicas e as leis que as regem, a vanguarda sempre incomoda. Ao mesmo tempo, no entanto, é necessária, e entre idas e vindas consegue se impor entre fluxos de avanços e refluxos de retrocessos sociais.

Hoje, a sociedade ergue-se contra a arte e a ciência tal como no romance de Saramago. Mas, como revela a crítica de Erasmo, elas subjazem a todas as ameaças, visto serem necessárias para questionar a organização social e, desta forma, fazê-la reexistir. No contexto da virada da Idade Média para a Renascença, Erasmo aponta que nos estertores da loucura pode estar o ódio e a soberba, mas também podem estar a fé e o amor. Isto é, do ser que foge ao mediano e atinge os mais sublimes degraus da loucura, nasce o que homens e mulheres medievais consideravam o pilar da humanidade.

E não estaria correto? Isto posto, e com a devido olhar que revisita um texto medieval, percebe-se o quão necessários são aqueles que manifestam sua subjetividade em amor à humanidade, não importa em que tempo e sob que juízos. Exaltados como Saramago ou no anonimato de Blimunda, Baltazar e Bartolomeu, eles resistirão.


Hélio de Mendonça Rocha é jornalista. Atua como repórter de meio ambiente e direitos sociais para a revista Plurale e como analista político para os jornais Brasil 247 e El Siglo de Chile. Foi correspondente internacional na China em 2019.


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