A Arte não Pede Licença

Intervenção Urbana, é o nome que se dá da interação de algum objeto (geralmente em espaço público ou monumento), com as ideias do ser criativo. É uma proposição artística juntamente com algo já pré existente, que tem como objetivo lançar novas percepções sobre o espaço, cenário ou que simplesmente visa questionar e/ou transformar significados e expectativas da sociedade e seu senso comum. Geralmente, vem sempre seguida de um caráter ideológico, político ou social.

Na década de 70, no bairro de Bronx em Nova Iorque, surgia o então conhecido estilo musical Hip Hop. O jamaicano Kool Herc, então DJ àquela época, realizou uma festa em que decidiu tocar apenas a parte instrumental e os breaks de músicas de funk e soul daquela. James Brown, Jamens Clinton faziam parte do repertório. A partir daí, o Hip Hop se tornou uma grande potência, não só presente no ramo musical, mas compondo as fileiras da moda, arte e dança. Depois da década de 90, as intervenções urbanas no Brasil tomaram grande forma, principalmente após a formação dos coletivos artísticos.

Assim como Break Dance é uma linguagem dentro da cultura Hip Hop, outra expressão artística advinda é o Grafitti. Basicamente, o Grafite são pinturas feitas à mão sobre um muro, parede, monumento, estátua, ou qualquer elemento que esteja na via pública. Na maioria da vezes, sua produção é voltada para uma crítica social.

Norman Mailler, um consagrado escritor norte-americano, definiu o grafite como: “uma rebelião tribal contra a opressora civilização industrial”.

Sinto que tenho alguns privilégios como fotógrafa. Privilégios esses, que na maioria das vezes sobrevêm com máxima sutileza. É preciso estar atenta para perceber e receber tais dádivas. Ter a oportunidade de entrar no íntimo e pessoal de tantas pessoas, seus costumes, seus cheiros, olhares, histórias, contos, causos, suas amarguras e deleites, pra mim, sem dúvida é a maior das dádivas.

Parecia-me tudo esquematizado. O precedente bate papo com a comunidade. A procura pelo lugar certo. A preparação do material, (que tenho a audácia de dizer, uma das minhas partes preferidas). Repleto de inquietação era o cuidado envolvido na escolha das cores. Logo se ouviu o famoso e irreverente barulho da lata de spray sendo balançada. Em seguida, o cheiro forte da tinta e mais fortes ainda eram os traços que iam se criando. Formas, contornos e linhas. Um dança com passos medidos por cheiro, cor e suor do corpo. Externizava-se a arte através dos poros.

A criança, o velho, a dona de casa. Olhos ativamente curiosos. O passo apertado era diminuido para contemplar os murais coloridos. E da boca saia: – Ei, tem um muro lem casa! Quando vai pintar lá? Em poucos minutos a tinta virou arte, eternizou-se em meio a periferia. Encravou. Transmitiu. Disseminou. Inquietou a mente de quem passava.

Ronaldo Gentil, um dos pioneiros na arte do grafite no estado do Espírito Santo diz ” Estamos em busca de uma identidade e algo que poderíamos afirmar que é nosso. Pode parecer mania mas é pertencimento. Buscamos o máximo da nossa relação com o lugar que nos criou. Não somos só indivíduos em uma cidade, somos parte dela. Por isso sorrimos em todos os lugares”.

Por fim, os autores e artistas com sua obra terminada, ao olhar em volta, orgulhosos, sorriram.


Caroline Stabenow é Médica Veterinária por formação. Fotógrafa, humanista, voluntária. Amante de leitura, música, vira latas e um bom café preto.


Clique na imagem para acessar a loja virtual da Bodoque!


Galeria

Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.

Deixe uma resposta