Onde Mora o Tempo

“Gostosura da vó!”

Assim, ela me recebia na roça quando eu chegava para visitá-la. Da cozinha ela vinha arrumando o arquinho que teimava em escorrer pela testa e me dava um abraço forte. O corpo magro, o cabelo incrivelmente branco e liso, o maço de cigarro no sutiã e o isqueiro na cintura da calça. As mãos sempre em movimento, nunca em paz. A voz rouca de fumante, a pele craquelada de agricultora. Eu digo que ela virará um sapo e ela me manda calar a boca. Esmeralda Maria de Jesus, minha avó, no auge dos seus 86 anos, vive o caminho inexorável de uma idosa com demência senil, e ela resgata da restinga da lembrança esse abraço para me dar até hoje.

A necessidade de cuidados a trouxe a Belo Horizonte e pude conviver com ela em uma etapa que não volta mais – o ápice e o fim das histórias do passado. Ela revezava entre a casa de uma ou outra filha, e eu a visitava para ouvir suas últimas prosas. Acho que ela sentia que a memória estava lhe dando adeus, pois começou a repetir casos marcantes em sua vida. O grande amor, as grandes desilusões, uma grande briga com meu avô, os ensinamentos da vida amorosa, as experiências mais felizes, os ditados e a receita de goiabada. Às vezes eu gravava o que ela dizia e depois mostrava para ver sua reação. Ela logo dizia: Tudo mentira! Aprendi que não se deve correr atrás do amor de ninguém, que o corte do cordão umbilical é a distância de três dedos do umbigo, a receita da goiabada perfeita e que o bom da vida é dançar.

Ela morou um tempo sozinha na roça. Dizia que não gostava de ‘serviço de mulher’, gosta é de ‘serviço de homem’. De fato, cozinhar almoço não era seu forte. Sempre autossuficiente, odiava ter que pedir ou depender de qualquer pessoa, pois tinha muita energia e não era qualquer dificuldade que lhe servia de obstáculo. Apesar de admirar, não puxei esse jeito de existir, mas minha mãe, sim. Elas são muito parecidas. Inclusive, na forma de me fazer rir ao contar os casos mais bizarros. Eu gostava quando ela dizia que dormia com machado debaixo da cama, mas “se o tarado que pulasse a janela fosse bonito…”. Ela chamava homem bonito de “tesouro”, não gostava de gente “mitida” e xingava a gente de “bocuda”. 

Dizem que perto da morte as experiências da vida ressurgem, e é dessa matéria que se fazem as histórias. No caso da ‘Esmerarda’, dito com sotaque caipira, relembrar nem sempre era reviver, já que parecia um passado mítico criado em meio às grandes culpas e dúvidas que alguém poderia carregar pela vida. E quanto mais caso ela contava, mais eu queria ouvir. Por mil vezes ela contava o caso do Zé Amaral, antigo namorado, por mil vezes eu perguntava detalhes. Quanto mais ela dizia, mais eu prestava atenção no que não era dito, de que forma eram repetidos os detalhes e qual emoção parecia mais verdadeira. E ríamos juntas, sempre. Somos feitas com a mesma medida do deboche, farinha do mesmo saco da gargalhada e deixamos todos arregalados, mas não perdemos a graça da piada.

Com o tempo, esta constante desfragmentação da memória e da figura que ela representava foi se misturando a processos que eu estava vivendo, igualmente transformadores, e compreendê-la parecia decifrar parte da minha história. Era nítido que a minha vida era uma continuidade da dela e que essa ancestralidade deveria ser dissecada, memorizada e assimilada para ser transformada no que fosse possível. Por sorte, a fotografia começou a me acompanhar e este se tornou o meu melhor jeito de eternizar esse momento entre nós. 

Entre tantas vivências, uma mexeu comigo. Fiz umas tatuagens no braço e ela sempre começava a conversa da mesma forma: “Isso não sai nunca mais?” “Por que fez isso?” “Imagina quando você estiver ganhando neném e o médico te ver gritando, assim, toda rabiscada!” Neste momento, pensei que o corpo nu, para ela, era motivo de muito pudor. O único momento em que ela se imagina ficando nua para alguém estranho era no momento do parto. Comecei a lembrar que ela nunca gostou de ficar sem roupa perto de nós, nem quando tomávamos banho na bica. Junto a este insight, comecei a perceber que seu corpo velho com rugas, cascas, deformações e dificuldades, lhe era um corpo estranho. Foto alguma lhe parecia boa. Todo retrato vinha seguido de negativas, praguejando que um dia eu ficaria ‘caquética’ também. Com o tempo, ela foi se adaptando à presença constante da minha câmera e a postura repreensiva foi se tornando parte de um teatro para manter a graça. Quando ela me negava a foto, eu lhe roubava com uma posterior gargalhada, depois ela encarava a lente, como se pedisse: decifra-me.  

Toda vez que estávamos juntas era como se fosse um encontro, mas era uma despedida. Eu sabia que em breve sobraria somente aquele olhar vago de um corpo ausente e que não haveria mais ponte nos interligando racionalmente. Baseado nesse embate entre vida e morte, iniciei um trabalho fotográfico que, aparentemente, não tem respostas. Como Ida Ferreira diz: “exercício do irreconciliável, de uma tentativa sempre malograda de se aproximar ‘por imagens’ do indizível”.  

Entre tantas reflexões advindas pela convivência com a velhice, junto à dificuldade da nossa geração em lidar com a morte, com a finitude dos prazeres e da consciência, com a miserável realidade que nos espera, o trabalho foi ficando denso. Num mundo criado pelo self, cogitei questionar para onde ele iria quando não houvesse mais memória. Para onde irão nossos medos, nossos desejos, todas as experiências vividas, as conquistas exageradamente enaltecidas, todas as manias, os afetos construídos a dedo, os segredos nunca contados, toda uma teia construída por décadas e à duras penas. 

Quem se tornaria a minha avó, esposa do Jafé, mãe da Beth, neta do Paiôto, irmã da Fia? Minha avó ainda anda, mas conta menos histórias. Não lembra o nome das pessoas, nem seus rostos lhe são mais comuns; o nome dos netos nunca soube, mas a existência de alguns ainda é sabida. Não sabe em qual cidade está, não lembra o que fez no dia anterior, não xinga mais ninguém, não vai pra estrada pegar carona com ônibus escolar para visitar a Maria José e receber pagamento no banco. Não relembra mais as grandes histórias, não faz mais nenhum doce e, agora, tem uma cuidadora. É a primeira vez que ela aceita ajuda de alguém.   

De certa forma, essa convivência tem me ajudado a reformular os meus processos – não só comigo, mas com minha mãe, e a viver de forma mais leve, com menos medos. Minha prima Isabela teve uma conclusão parecida em um texto: “A gente não precisa virar outra pessoa pra conseguir resolver nossos problemas, mas também não somos escravos do nosso passado, e nosso futuro não é tão determinístico assim. Existe espaço pra mudança (…) A gente às vezes só precisa se esforçar um pouco mais pra acharmos a nossa forma mais humana.”

Sendo assim, termino com um fragmento do livro Leite Derramado do Chico:

“Não era novidade, já de um tempo havia por toda parte esses diletantes ou profissionais da fotografia, captando instantâneos para a posteridade, como se dizia. Então presumi, não sem vaidade, que ao se revelar aquele instantâneo, eu seria o único a figurar para a posteridade frente a frente. E passados muitos e muitos anos, uma vez consumada a fuzilaria do tempo, ainda assim de alguma forma eu seria um rosto sobrevivente, porque tive o instinto de me voltar para a câmera naquele instante. (Leite derramado, 2009, p. 25)


Luci Sallum é mineira, tem 39 anos e fotografa tudo que lhe emociona. Por pura vaidade acha que seu jeito de contar histórias toca as pessoas e, se misturado a café e queijo mineiro, podem salvar o mundo.



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