O Brilho

Se a vida pudesse ser medida em páginas, ele poderia jurar que a sua não passaria de poucas linhas esquecidas pelo tempo. Da infância, lembrava muito pouco. A adolescência, queria esquecer. E velhice não era nem uma opção. Sobrava o agora, mas até quando?

Escutou a correria, pegou a bolsa e pulou do segundo andar. Caiu de mau jeito, saiu mancando alguns passos, mas a adrenalina faz esquecer a dor. Foi descendo pelos caminhos mais escuros. Apesar de saber que aquele beco onde estava não despertava as atenções, sua tensão não baixava por nada nesse mundo. O coração na boca, as orelhas em brasa e a barriga tremendo.

Não demorou a chegar na cortina de capim que margeava o canal. Deitou-se por uns instantes no mato e tentou olhar pro céu, mas aquelas estrelas ofereciam muito pouco, uma vez que estava entre o caos de luzes e sons do morro que descera e o reflexo inquieto das cores da cidade nas águas turvas da madrugada.

Os segundos passavam horas e a confusão parecia cada vez mais próxima. Voltar atrás era assinar a própria sentença e esperar o raiar do dia era contar com uma sorte que nunca deu as caras por ali. Sempre sentiu desprezo pela rotina dos vizinhos e agora dedicava-lhes uma inveja sem precedentes.

Esqueceu propositalmente a bolsa no capim amassado e se atirou no canal. No começo, os pés afundavam na lama e tocavam os pedaços de pedra, pau e planta lá do fundo. Depois o nível d’água foi passando do peito e ele teve que acionar a memória do corpo para bater braços e pernas bem coordenados. Fazendo o mínimo possível de barulho, foi se afastando do canal lamacento e ganhou a vastidão da baía. Mirava na direção dos altos prédios iluminados ao longe e investia quase todas as suas forças. Nadou assim por horas. Os tons escuros foram abandonando a noite e quanto mais clareava, mais gelada a água ia se fazendo sentir.

O céu misturava faixas rosas à escala de azul. Anestesiado de frio e cansaço, o nadador só podia realizar movimentos curtos e demorados, com dificuldade crescente. Por vezes, uma dormência dominava o corpo. A alucinação e a sede eram as únicas companhias. As coisas ficaram distantes e, quando abriu os olhos, sentiu uma pressão arrastar suas costas. Enxergava tudo embaçado ainda e foi sentindo as mãos aos poucos. Virou levemente a cabeça e viu um joelho diante de si. Duas mãos grossas puxaram seu ombro e deitaram-no de bruços. Tossiu forte e arranhado, cuspiu uma água amarga e começou a voltar a si. Estava numa espécie de canoa, diante de um senhor que o olhava em silêncio. Os olhos vermelhos queimavam e os lábios rachados ardiam. O homem o ajudou a sentar-se e levou um gole de água até sua boca. Agradeceu com os olhos e tombou novamente na madeira do barco. Dormiu.

Em alguns minutos, o senhor embicava o barco por entre as estreitas palafitas do mangue. Com a ajuda de dois amigos, levantou o corpo desmaiado e carregou-o até em casa. Acomodou em seu próprio quarto o inconsciente e pediu à mulher que preparasse um caldo. Sentou-se ao lado do corpo estendido no chão e ficou de vigília. As pessoas iam se aproximando do barraco com ares de curiosidade, perguntando o que se passava. Da pequena janela da sala, a filha respondia:

– É nada não. Paínho pescou um homi…

Inclinaram sua cabeça e meteram-lhe a sopa goela abaixo. Bem devagar, foi sentindo que lhe voltava o controle das extremidades, mas ainda estava fraco para movimentos bruscos. Aquela gente em volta dele só podia ser alguma coisa de deuses. E aquele cômodo algum tipo de santuário. Viu a aflição nos olhos da filha do canoeiro e sorriu pras pessoas, como forma de dizer que estava bem. A moça sorriu de volta, com dentes tímidos, e levantou-se para ir cuidar de seus afazeres. O resgatado olhou para si e já não reconhecia mais quem fora até a véspera. Sua história estava só começando.


Vitu Marcs deposita suas poucas esperanças na literatura, sobretudo aquela das ruas. Muitas pessoas estão perdidas, mas ainda há tempo (salve Criolo).”



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