Sensibilidade: Modos de Olhar para Dentro

No dia a dia do educativo de um Museu, durante a visitação, esperamos que o visitante se sinta estimulado a confrontar suas noções sobre arte, cultura, criatividade, diversão, conhecimento, etc, com outras visões de mundo e possibilidades de entendimento. Entretanto, para que essa tarefa seja realizada, precisamos deslocar o visitante de sua zona de conforto, para um lugar onde a certeza sobre esses conceitos encontra-se em suspensão. Portanto, buscamos despertar sua curiosidade a partir de reflexões que apontam outros caminhos para ler e interpretar as próprias experiências, provocando cada indivíduo que visita o museu a questionar, a partir da experiência museológica, aspectos relacionados à própria vida.

Nesse sentido, precisamos constantemente nos voltar para a atuação dos educadores no momento da mediação, pensando sua formação para além de seu repertório de conhecimento, criando estratégias para aperfeiçoar uma ferramenta extremamente eficaz para o desempenhar suas atividades: a sensibilidade. E esse é um texto sobre sensibilidade.

Podemos dizer que a sensibilidade é responsável pelo potencial de interpretação e associação de nossa capacidade perceptiva sensorial. É uma característica humana, algo que nos difere como seres vivos em nosso processo cognitivo.

Se considerarmos que a consciência da própria existência é um avanço no que diz respeito à sensibilidade de um ser vivo, o homem pode ser analisado, a partir daí como ser ontológico, um ser sensível.

Não tenho a pretensão de entrar em detalhes acadêmicos ou expor conceitos filosóficos sobre a existência humana para falar de sensibilidade, mas algumas noções vão nos ajudar a entender a importância de ser e estar cada vez mais sensível para encarar um processo como a mediação.

Ao atuar como educador em espaços não formais de educação, encaramos a responsabilidade de exercer práticas políticas e práticas estéticas. No momento da mediação, é preciso compreender o visitante em sua complexidade, sua realidade intelectual, cotidiana e psicológica, encontrar pistas sobre seu repertório e seus interesses, para que a experiência de se visitar o espaço seja algo que fale também sobre as interseções com sua vida.

A mediação é um espaço aberto à partilha, passível de se tornar um lugar compartilhado. Conforme avançamos rumo à profundidade dos interesses do indivíduo que se submete à mediação, abrimos as portas de nossa percepção para interpretar os novos dados que se apresentam, assim, criamos um território onde o conhecimento partilhado constrói novas interpretações da realidade. Por isso a sensibilidade é tão importante.

Para Rancière, existe um sistema de evidências sensíveis que revela a existência de um comum, e dos recortes que nele definem lugares e partes respectivas (RANCIÈRE, 2018).

Nas palavras do autor,

Essa repartição das partes e dos lugares, se funda numa partilha de espaços, tempos e tipos de atividade que determina propriamente a maneira como um comum se presta e como uns e outros toam parte nessa partilha.

(RANCIÈRE, 2018. pág 15)

Assim, a partilha do sensível faz ver quem pode tomar parte no comum em função daquilo que faz, do tempo e do espaço em que essa atividade se exerce, e, para encontrar o comum e questão, é preciso que as partes se identifiquem.

Por este motivo, fazer provocações que coloquem o visitante em condições de revelar a parte onde habita seu lugar de fala é fundamental para que o relacionamento construído durante a experiência no museu tenha condições de adentrar no contexto pessoal de cada indivíduo.

Sendo assim, é imprescindível que os educadores tenham como objetivo realizar uma arqueologia de si mesmos. Que tenham como hábito a criação de estratégias para voltar seus olhares para dentro, inaugurando novos modos de olhar para si, para o outro e para o mundo. Desse modo, adentrando em camadas cada vez mais profundas de sua existência e subjetividade, cada educador pode desenvolver suas faculdades humanas a ponto de trazer para a superfície formas mais sensíveis de ler e interpretar a realidade, deixando à flor da pele tudo aquilo que o define e que vale a pena a partilha.


Frederico Lopes é Artista, educador e gostaria de ser Escritor. Trabalha no Memorial da República Presidente Itamar Franco e é fundador da Bodoque Artes e ofícios.



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