Bacurau: O Brasil Profundo

Nas entranhas de um Brasil profundo, existe uma realidade cotidiana conhecida pelo amplo imaginário coletivo do brasileiro. E em cada detalhe dessa representação, ademais das dificuldades de uma vida dura e simples no interior do país, Bacurau é revolucionário.

Existe no filme uma subversão da representação da doce ingenuidade do brasileiro médio, que vive geralmente em grandes capitais do país, e que acredita que o Brasil é o sul e o sudeste. Essa falsa impressão é na verdade uma negação da miscigenação que está estampada a pele e nos traços de cada brasileiro, uma entre tantas outras formas de subjugar sua própria raiz cultural ante ao imperialismo norte-americano. Tal negação, desperta anomalias sociais onde as pessoas se sentem à vontade para definir quem é branco ou negro como quem faz uso de uma escala de cores a la Pantone. Eu sei, muitos brasileiros acham que são brancos.

Por outro lado, o cotidiano duro de quem vive fora das grandes capitais é retratado de maneira crua e verdadeira no filme. Uma alegoria da vida simples e prosaica dos habitantes de Bacurau, mostra aquilo que é reconhecível em cada pequena cidade do interior do país, cujos personagens são facilmente identificados em poucos instantes. Talvez por isso nada soe grotesco em Bacurau.

Existe um sentimento fraternal que nos une a cada elemento representado no longa. Na dona do bar, na igreja fechada, no carro de som, no velório em casa, no postinho de saúde e na filha do vizinho que foi pra capital se formar médica. No prefeito dantesco que oferece indulgências em troca de votos e no professor que procura a cidade no mapa por satélite. Poderia ser qualquer outra pequena cidade brasileira pela qual passamos de carro em direção aos grandes centros.

O fato é que reside em Bacurau uma profunda e autêntica representação do Brasil. Um Brasil que resiste às dificuldades impostas pela ingerência do Estado que nem sabe de sua existência. O Brasil que resiste onde o Estado não existe, onde políticos só aparecem às vésperas da eleição. Um retrato triste de uma realidade comum e caricata.

É por isso que Bacurau é um filme necessário. Poderíamos discutir diversos aspectos do filme. Confrontar várias interpretações possíveis sobre a importância de diversos arquétipos questionados pelos diretores e ressaltar infinitas nuances na trama do filme. Mas a verdade é que o impacto de Bacurau está no retrato de uma sociedade brasileira simples e verdadeira, que estabelece um contraponto com à parte fragmentada e alienada de si mesma. No jovem que acredita se sentir completo ao viver um lifestyle cult saindo do cinema depois de assistir um filme nacional, feliz por se encaixar em um grupo onde pseudo opiniões não encontram a profundidade real de Bacurau.

À estes, deixo a célebre frase de Milton Santos: A força da alienação vem dessa fragilidade dos indivíduos que apenas conseguem identificar o que os separa, e não o que os une.”

Bacurau é a resistência de um Brasil profundo, onde residem as raizes da mais verdadeira e essencial interpretação da cultura brasileira.


Frederico Lopes é Artista e gostaria de ser Escritor. Trabalha no Memorial da República Presidente Itamar Franco e é fundador da Bodoque Artes e ofícios.


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