A Fresta na Janela

É difícil voltar a dormir depois de olhar para a fresta na janela. Aquela, no meio das duas partes da cortina, que dirige um feixe de luz em direção à cama pela manhã. Ela bate em cheio, bem no rosto, dissipando o sono. Você se vira para o outro lado, mas a memória da luz já não pode ser esquecida. É nessa hora que você fecha os olhos e tenta voltar a dormir, mas não consegue: a mancha da luz permanece nos olhos e o mantém acordado, como a fome daquelas crianças na rua e dos mendigos que se encontram apagados todas as noites nas marquises da esquina da avenida paralela. Realmente é de se perguntar como essas crianças dormem a noite. Se é que dormem. Todo mundo sabe como é difícil dormir com a barriga vazia. Você rola para a direita, depois para a esquerda e a fome incomoda enquanto luta contra ela. De repente você desiste, se levanta e vai à cozinha. Abre a geladeira, monta um sanduíche rápido, para não perder muito tempo de sono, e volta. Mas não aquelas crianças, elas não têm o que comer a noite. Os mendigos da esquina da avenida paralela também não, a não ser que alguém os dê um pouco de comida ou algo assim, até porque já viu né? Se der dinheiro gasta tudo com cachaça e crack. Algumas pessoas do prédio até dão comida de vez em quando, até você dá um pouco às vezes, quando vai até a padaria e esquece de prestar atenção nos pedidos. É nesse momento que você rola para o lado na cama e dá de cara com a fresta na cortina pela segunda vez: mas que porra, tinha esquecido dessa merda. Você vira rápido para fugir daquela luz, mas já é tarde demais. Novamente o sono que já estava quase chegando vai embora. E você, que já estava quase se esquecendo do feixe de luz, é obrigado a se lembrar novamente e ficar com aquela mancha gravada na memória ocular. Sem contar a palpitação, causada pela raiva e pela virada brusca, que te impede de retomar sua concentração para o sono. A raiva talvez seja pela frustração da perda, algo seu por direito, tomado assim de você por causa do descaso com a fresta na cortina, que na noite anterior era totalmente inofensiva. É uma raiva muito mais forte até do que aquela causada pelo Vazou o áudio daquele senador lá, viu? Uma vergonha, não?, Realmente, uma vergonha, mas fazer o que, político não presta… aqui vou lá, estou bem atrasado, acho que vou ter que pedir um Uber, até! É uma raiva diferente essa, na cama, daquela, na rua. Talvez porque a raiva de perder o sono seja culpa sua, afinal quem deixou a cortina aberta foi você, já essa conversa de política não, é tudo culpa de quem não sabe votar… não tem nada a ver contigo… agora, depois desses vinte minutos tentando dormir, você percebe que é impossível voltar a dormir depois que se olha para a fresta na janela.

Fotografia: Luana Sofiati

Thomas Frizeiro é mestre em Estudos Literários pela UFJF e graduado em Letras (português e literaturas) pela mesma instituição.


Clique na imagem e acesse a loja virtual da Bodoque!


Galeria

Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.

Deixe uma resposta