Apesar

A flor se vestiu de luto, tecida por fios de medo, anáguas de incerteza e espartilhos claustrofóbicos de desespero. Gritou silenciosamente no meio da própria incompreensão. Não havia mais matéria para envolver as palmas das mãos, no acidental aborto do eu. Se dissipou, rapidamente, como neblina no pós estouro de fogos. Perdão! Não conseguimos ser apresentadas durante a primavera, pois ainda era primavera.

A febre do silêncio se transformou no aço impenetrável que, por sua vez, reluzia um labirinto mal acabado; armadura inabalável que nem o vento cortante de julho conseguiu desestabilizar. Por mais que houvesse um soldado por trás, esse já não era mais tido como sinônimo de estrutura.

O discurso confuso foi exposto com um descompensado “socorro”, interpretado como “força” e elogiado pela “maturidade”. Esqueceram que era primavera, o botão ainda estava a desabrochar. Com isso, a flor não conseguiu exalar os sintomas ao ataque das ervas daninha. Então, ornamentou a coroa de seu próprio velório e, com seus espinhos, assinou seu nome na lápide.

O tempo passou e os ventos do outono trouxeram os gritos sufocados, mas perpetuados durante a primavera. Chegou forte, desestabilizando e, ao mesmo tempo, mostrando novos caminhos já que as rajadas iam tirando as folhas caídas do meio da estrada. Com toda perseverança que lhe coube, sobreviveu firme o pólen da então falecida flor, esquecida de si em cima da gélida lápide. 

Findou-se a primavera. Silêncio durante o verão. Vida no outono. Chegou o inverno.

A flor não nasceria do mesmo botão, mas a que viria recebeu o velho amigo, o pólen. Ao adentrar o inverno, rigorosamente gentil, abriu alas ao retorno da primavera – nova primavera. 

Seja bem-vinda! 


Larissa Valladares é filha, admiradora dos “pormenores” da vida e aspirante ao serviço social.


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