1. Cultura

Atravessou a rua pensativo, sinal aberto, quase foi atropelado por um fiat preto, da cor dos seus pensamentos. Estava entre a Getúlio Vargas com a Halfeld, confluência de bancos cuspindo seu capitalismo em nossas ventas. Ao dar de cara com o prédio do Crédito Real, logo lhe veio à mente a figura do presidente Itamar Franco, uma vez que lá era o abrigo do Instituto Itamar Franco. Ficou pensando o quanto um estadista desses, como Leonel Brizola e tantos outros que já se foram, faz falta nos dias de hoje.

A mente do ser humano tem lá seus segredos, tornando-se inescrutável muitas vezes. E era o que acontecia naquele exato momento com aquele flâneur dos tempos contemporâneos. Assim que chegou à Batista, subindo a Halfeld, do Franco passou para a faca e lhe veio à mente desta vez a palavra Cultura. Uma palavra cheia de us como cavernas repletas de reentrâncias, mas que em sua essência carrega uma simbologia forte, imensurável. E imaginou como foi bom pensar nela justamente ali, subindo a Halfeld, abrindo meio sorriso nos lábios, olhos chapiscados pelas luzes mortiças de um inverno irregular; com a dona de salto alto ao lado levando a tiracolo sua bolsa carmen steffens; o vendedor de amendoim torrado dos tempos de sua infância; o rapaz de chinelos havaianas e blusa regata surrada fazendo propaganda para um ourives; um mendigo deitado ao lado de uma loja fast food alheio ao cheiro da batata frita contemplando o horizonte com a mão esquerda estendida no ar; o estudante de mochila nas costas e fones no ouvido ruminando um pastel no china e perscrutando à frente o Cine-Theatro Central, local de tantos encontros, tantos festejos, tantas balbúrdias. Ele estava momentaneamente feliz ao pensar nisso tudo, porque lhe trazia sua humanidade de volta, seus sonhos de outrora, sua esperança de que devemos ir além de nós mesmos.

Pensou o quanto que essa palavra pensada era carregada de significado, cheia de amor, repleta de abraços e empatia. Quando deu por si, já havia atravessado a Rio Branco e entrado no Parque Halfeld, a nossa Park Avenue, símbolo da nossa cidade, cultura viva (olha ela aí de novo) pulsando firme no coração de Juiz de Fora.

Comprou uma pipoca e desceu, feliz, nem que fosse por uns instantes, a Santo Antônio. Começou a enxergar as pessoas de uma maneira diferente, como se fossem todas elas suas amigas, como se merecessem um abraço fraterno, um dedo de prosa na esquina, um tapa no ombro afetivo antes de se virar e seguir seu rumo. Na esquina com a Benjamin Constant, avistou o Museu de Arte Murilo Mendes, já encantado, deu de cara com uma enorme escultura no jardim, apenas um gradil os separando. Sob o olhar curioso dos passantes e dos vigilantes do local, pulou a cerca, tirou seu tênis e suas meias, sentindo a grama molhada pelo sereno nos pés, apertando-os contra o solo e sentindo um prazer singular nisso. Contornou o pequeno lago e tocou a escultura, fria, impassível, no relento, belíssima, jogada à própria sorte, e entendeu naquele momento o significado da palavra Cultura. E sorriu.


Darlan Lula é doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Escritor, autor de cinco livros, entre prosa e poesia. www.darlanlula.com.br


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