Distopia

Os olhos vazios e sem esperança estavam voltados para a orla da praia, onde, há muito tempo, não encontravam amparo vindo do leste, muito menos no então esquecido azul do céu. A cidade já não habitava mais os belos corpos dourados e poéticos. Nada continuava lindo. O calor era ausente nas cores, músicas, peles, diversidades e relações. As circunstâncias foram obrigadas a se tornarem habitações de escombros ambulantes, de pés sem norte, de vidas sobre(vi)vidas. 

Das matas verdes? Agora cinzas. Dos lindos campos? Agora cinzas. Dos nossos bosques? Agora cinzas. Do arco-íris? Agora cinzas. Das diferenças? Agora cinzas. Da democracia? Agora  cinzas. Do eu? Agora cinzas. Da pátria amada? Agora cinzas. Salve a mono cromatização!

A morte regia toda a cidade, com terno e subordinados espalhados em cada canto, dizimando, com olhos e ouvidos atentos aos que estavam nas ruas. Marginalizados, atuando em seus papéis de : “capitais desumanizados”. 

Largas eram as escalas de cinza, que cobriam tanto as nuvens no céu quanto as roupas das pessoas.

Pessoas… quanta saudade! Não havia mais diferenciação. Seus cabelos eram iguais, rente ao couro; roupas largas, sem marcação ou acabamento no mesmo, já saturado, cinza. Semblantes engessados, sem linhas ou expressões. Corações sem estímulo, sem vínculo, sem ligação e sem razão, apenas bombeando o que os moviam.  Sem qualquer vida, sem qualquer razão. O futuro era um retrocesso.

Tudo começou pela igualdade, e, em nome dela, estabeleceram a justificativa pro caos. No alto dos prédios ainda era possível escutar o clamor de misericórdia vindo das ruas e as marcas não registradas de devastação pela intolerância, formada e perpetuada por estruturas, contendo pé e mãos sujas pela perda da inocência.

Então, como uma resposta ao apelo das dores, ela nasce. Pequena, frágil e, aparentemente, igual a todos. Porém, mesmo assim, sua presença era notória, onde quer que fosse. Seu coração se agitava em uma santa indignação e a fazia se mover com astúcia e precisão por todos os cantos da cidade, reavivando as prosas e versos. 

Entrava em cada bifurcação e viela estreita, gritando a plenos pulmões o jargão esquecido na paz falecida: ORDEM! ORDEM! ORDEM! 

Gerada no útero da esperança, nutrida pela solidariedade e acolhida pela justiça. Não há ferro em seus pés, ou mordaças em seus lábios. Mas há marcas em suas costas, notório conhecer do medo ao cair da noite e insegurança nas demonstrações de afeto. E isso faz com que se mova, rápida e precisamente, clamando: ORDEM!  

Pode-se crer no seu fim, mãe esperança? Pode?


Larissa Valladares é filha, admiradora dos “pormenores” da vida e aspirante ao serviço social.


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