Sob o Holofote do Cuidado

A essência humana, assim o viu a ancestral sabedoria dos mitos, reside mais no cuidado do que na razão e na vontade.

A frase é do teólogo e filósofo brasileiro Leonardo Boff. Está na sua obra Saber Cuidar. Ética do humano – compaixão pela terra, 1999. 

Desde 2003, pelo menos, esse livro mora em minha casa. Ele me foi emprestado na época por uma antiga terapeuta e acabou ficando por aqui. Ao longo desse tempo, já fui e voltei nele várias vezes, inclusive, sublinhei trechos e circulei – de lápis bem clarinho – , enfim, fiz coisas que nunca poderia ter feito no livro do outro. Acabei de me dar conta disso. Pode ser que lá no fundo eu já soubesse que ele nunca voltaria para a sua dona de origem, mas isso definitivamente não é uma boa justificativa. 

Vexatório começar assim, pois o assunto é simplesmente o cuidado.

Pois bem, há alguns dias tive a sorte de poder assistir de corpo presente e escuta ativa a uma palestra do filósofo colombiano Bernardo Toro e, nessa mesma semana, pude também participar de uma conversa com Alemberg Quindins, criador da Fundação Casa Grande Memorial do Homem Kariri, um espaço cultural para crianças, que fica no sertão do Ceará.

Esses dois encontros que aconteceram em dias seguidos foram – inspiracionais na sua essência – como holofotes para mim. Holofotes dos postes da rua mesmo, com uma luz branca bem forte, que ilumina tanto que deixa a gente sem enxergar por um tempo. E foi esse intervalo, que fiquei sem enxergar, que foi dedicado às minhas próprias inquietações que estavam ali, meio pendentes, meio não, mas certamente a espera da luz branca, forte e que dá vertigem.

No centro das inquietações estava o cuidado que, não faz muito tempo, questionei se não estava obsessiva por ele, ou na dúvida mesmo sobre como ele pode integrar a vida diante desse tempo – da realidade atual. No entanto, esses dois senhores que ouvi dizem que eu não devo ter dúvidas e que a obsessão é necessária. Para complementar, um deles ainda menciona o cuidado como um conceito feminino. Eu acredito.

Tudo que existe deve ser cuidado. Estar atento é fundamental e não é sempre relaxante, pois o exercício da existência por si já é bastante vigoroso. O auto-cuidado, aliás, faz parte desse pacote e nos torna seres muito mais potentes e nutridos para nossas contribuições. 

Quando volto ao trecho do livro do Leonardo Boff que iniciei o texto, enxergo a nossa sorte em relação a residência da essência humana. Faz sentido pra mim e acho bonito. Penso nas minhas escolhas até agora e nos espaços que ocupo e me fortaleço. Entre tantos assuntos eu escolhi profissionalmente colaborar com a cultura e a partir dela tenho a oportunidade de atuar sob o holofote do cuidado. 


Juliana Moreira Alves é jornalista graduada pela Universidade Católica de Pernambuco e hoje atua na iniciativa privada, na área de investimento social com projetos de cultura.


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