Fotografia Polígrafo

Muitos são os movimentos e linguagens provenientes da arte. Todos eles partem de um pressuposto de expressar emoções e ideias, antevindas de um processo de criatividade único, tendo em conta a percepção humana como base.

A fotografia é um ramo advindo da arte, em que nela são subdividas várias vertentes. Uma delas, é denominada fotografia humanista. Seu surgimento se dá por volta da década de 30, e ainda depois  mais fortemente, após o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945.

A fotografia humanista veio como uma tentativa de relembrar para sociedade, uma vez moída pelas dificuldades econômicas e materiais, os prazeres e amores da vida cotidiana. Algo que fizesse sentido em meio ao caos, longe das atrocidades e pesadelos da guerra.

Os fotógrafos de origem francesa, Henri Cartir-Bresson, Robert Doisneau e Willy Ronis, conhecidos mundialmente por revelar a vida parisiense da época, foram os precursores e verdadeiros fundadores dessa tendência artística.

Basicamente, o foco é dado ao homem. Henri Cartier-Bresson afirmou: O objeto da foto é o homem, o homem e sua vida tão curta, tão frágil, tão ameaçada.

Muitos foram os que migraram nessa época para esse ramo. Um deles, Jorge Ross Sobrinho, ingressou na arte da fotografia por volta de 1945 . Seu olhar era voltado para os detalhes da vida cotidiana, tanto da corriqueira porção do dia, quanto sobre o olhar melancólico de uma senhora a beira da calçada, esperando pela tarde e seu fim. Em meio a revelações de filmes fotográficos, viveu a vida e criou cinco filhos. Após sua morte, deixou diversos equipamentos de trabalho. Entre eles, uma câmera analógica Zenit 12XP, na qual veio ao meu encontro no ano de 2010  pelo seu filho, meu pai. Se deu, naquele momento, o  início de todo meu apreço, interesse e respeito pela fotografia.

Ao longo desses anos, a fotografia me permitiu a saída da esfera como unidade em ser humano e me fez viver e entender a importância do coletivo. 

Ela desenvolve e constrói não somente o olhar, mas como também amplia as propriedades da mente em direção as adversidades da vida, e, a despeito de tudo, o mais importante e considerável: torna possível o encontro de agentes pelo caminho, que fazem parte de toda uma edificação para diferença na vida dos que necessitam.

Diante de tudo, a fotografia humanista grita e esperneia a realidade. Seja ela agradável aos olhos ou não. Dentre tantas definições, se encontra como polígrafo da vida. Desnudando altas patentes e grandes potências, independente de fronteira territorial, intelectual ou física. Redireciona para perto o ser humano como protagonista, que apesar dos labores, caminha.

Muitos foram os lugares pelos quais passei junto à uma câmera fotográfica, sendo eles campos de refugiados, comunidades carentes, orfanatos, prisões, favelas brasileiras, lares nas montanhas próximo ao Himalaia, aldeias remotas da África… tive a oportunidade de registrar as emoções cruas, dores e alegrias, que nos trazem para uma condição que é humana. Que apesar da enorme diversidade cultural ao redor do mundo, todos nós, em essência fugimos de guerras para escapar da morte, migramos para algo melhor, construímos novas vidas em terras estrangeiras, sangramos e sofremos a dor, rimos e choramos.

A fotografia me trouxe e continua a me consagrar cada dia, a educação de não apenas olhar, mas enxergar. E que na realidade, a única distância existente entre o fotografado e o fotógrafo é de uma câmera fotográfica.


Caroline Stabenow é Médica Veterinária por formação. Fotógrafa, humanista, voluntária. Amante de leitura, música, vira latas e um bom café preto.


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