Deus

And so therefore, I don’t believe in God anymore.

As palavras possuem peso, forma, cor, textura e estados diferentes. Por exemplo, as palavras entre aspas, lidas logo ali no início, mesmo que em outra língua, são sólidas, espessas, maciças, cinzas como rocha e pesam toneladas. É provável que, na boca de onde saíram, tenham deixado um after taste amargo, mas sincero. E assim, portanto, eu não acredito mais em Deus. No mais claro português, em tradução livre, essa é a declaração que inaugura o texto. O que levaria alguém a dizer isso? Como a ideia de Deus pode naufragar, acabando isolada na ilha da descrença? Afinal de contas – assim como perguntava a capa do livro de Philip Yancey, exposta nas prateleiras dos best sellers cristãos há alguns anos -, para que serve Deus? 

 Na Europa aflita, onde os ventos cortantes do fascismo e do nazismo começavam a soprar, Simone Weil experimentou Deus. Formada em filosofia pela universidade de Sorbone, foi a primeira mulher a alcançar o nível mais alto do ensino francês, sendo catedrática em um tempo onde o acesso à educação, principalmente no ensino superior, era dominado por homens. Por escolha, se pôs no chão de fábrica, junto aos operários franceses. Sentiu na pele o quanto pode ser cruel o mundo do trabalho incessante, que rouba dos proletários tempo, saúde e vida. Abriu mão do magistério para estar com os sem amparo, os esquecidos, os pobres. Passou a vida servindo. No chão árido do sofrimento, brotou a fé. Se dispôs a lutar na guerra, mas foi impedida. Ainda assim não houve como impedir o seu serviço. Se dispôs a viver no campo, cuidando do gado, ensinando crianças a ler e escrever, sentando-se à mesa com os rejeitados. Para Simone Weil, Deus serviu para revelar a ela um propósito de vida, como prova de que a miséria pode revelar a presença divina. Mas, talvez não seja na miséria que a fé more, ou que Deus esteja presente. Para Rookmaaker, por exemplo, Deus estava, apesar de também ter experimentado sofrimentos causados pela guerra, não na dor, mas na arte. 

Henderik Roelof Rookmaaker – conhecido também como Hans Rookmaaker – chegou a servir na segunda guerra. Conheceu os horrores dos campos de concentração como prisioneiro, teve um noivado rompido pela violência nazista, que levou sua noiva judia para os campos de concentração. Quando preso, se dedicou a ler a bíblia minuciosamente, de modo que se sentiu afeito pela mensagem do cristianismo. Após conseguir sua liberdade dos horrores do campo de concentração, estudou História da Arte, em sua volta à Holanda, agora já no período pós-guerra. Casou-se com Anky, mergulhou no universo das artes e da espiritualidade cristã, acreditava na criatividade como manifestação divina. Sua principal teoria buscava explicitar que a arte é plena em si, não precisar ser justificada. Temia a morte de um desejo de expressão do divino nas produções modernas, que buscavam se livrar da estética iluminista, rompendo com o apego ao mundo visto, mas ainda focando seus esforços no homem, não em Deus. Teve uma carreira notável, valiosa, que trouxe um olhar inquieto e necessário para o campo da espiritualidade e das artes. Para rookmaaker, o Deus presente na dor, se revelou belo nas artes. Mas talvez não seja na arte que você queira encontrar Deus.  É possível que você queira ver um Deus próximo, que se faça visto e palpável na comunhão, o que te leva a  procurá-lo nas igrejas – em específico, na narrativa religiosa cristã.. 

Já superamos o mundo feudal, já ultrapassamos o período de ascensão da burguesia, já rompemos com a modernidade e agora estamos em dias que não sabemos  definir.  Conexões sem fio, mensagens rápidas, comunicação curta, informações em número e velocidade inimagináveis. São tempos apressados, individuais e individualizantes. Em meio ao turbilhão de mudanças, as igrejas não se livraram de uma reformulação.

Não mais arquitetura gótica, nem barroca, muito menos as linhas e formas que fazem as igrejas parecerem a casa da vovó. Lógico, ainda há o que sobrou do passado, alguns templos não podem mudar, até por motivos históricos, mas o que se vê no interior não é mais o mesmo. Os ternos e gravatas não saíram de moda, mas agora dividem espaço com o visual jovial, casual, descolado. As músicas soam mais atuais, com fortes traços pop – o que pode fazer um leigo, numa ouvida despretensiosa, confundir o som worship com um novo disco do David Guetta ou do Black Eyed Peas. Os olhos e ouvidos são conquistados pelas cores e timbres, que já não lembram o frio ambiente eclesiástico do século passado. As luzes, os vídeos, as danças, as pregações, nada escapa do novo perfil de igreja, que se baseia em importações americanas, europeias e australianas. Tudo por dentro é novo. Ao menos, se assemelha com o novo.

Mas as novidades vão morrendo ao longo do percurso. Não demora muito, tudo é outra vez igual. Não há como negar o poder de movimento de massa que a igreja tem, nem o poder ressignificativo que a religião dá aos seus fiéis. Não raro podemos ouvir testemunhos que falam sobre as trocas de armas por bíblias nas mãos, de chinelo e bermuda por ternos e as novas identidades assumidas por tantos. Ontem, “Zé Pequeno”, hoje “um grande homem de Deus”. E isso é realmente significativo e bom. O problema está no modo como a igreja comprou a ideia da reificação, ainda que não veja isso. A ideia de padronização, com o intuito de conformar as pessoas ao sistema vigente, da Indústria Cultural, muito criticada pelo sociólogo alemão Theodor Adorno, se faz presente nas inovações no campo das instituições religiosas. 

Toda essa nova experiência religiosa, que a igreja do agora apresenta,  se baseia na estética e na performance. Uma vez que, de modo sincero, você expõe dúvidas e indagações, ou simplesmente discorda, por pensar de um modo diferente do que se assumiu como correto, uma imagem sua é construída e romper com ela é, no mínimo, complicado. As paredes do templo são menos rígidas, fixas e intransponíveis do que os muros levantados sobre os alicerces estéticos e performáticos. Os enlaces e flertes dessas novas experiências religiosas com a razão instrumental fazem dos espaços religiosos um espelho da pequena cidade fictícia – e não menos cruel por esse motivo – de Dogville. 

Fugindo de não se sabe bem o que, uma mulher chamada Grace encontra refúgio num vilarejo pacato, no interior dos Estados Unidos. No filme de Lars von Trier, quase tudo é tão imaginário quanto a própria cidade, uma vez que não há em cena paredes, nem locações específicas. Tudo é construído sobre um palco e um fundo pretos, onde os sons e as interpretações é que fazem nossa imaginação complementar as cenas com aquilo que está ali, mas não é visto. O que não é imaginário é o modo como as coisas ficam densas ao longo do roteiro. A estrangeira recebe a acolhida e a benevolência de todos da cidade, que se compadecem de sua condição: sozinha, perdida, faminta e sem abrigo. Retribuindo o modo como foi recepcionada, Grace passa a prestar pequenos serviços à comunidade. Mas passam-se os dias e a comunidade começa a enxergar a visitante com outros olhos. Os serviços prestados de boa vontade já não bastam. Sendo ela a única estrangeira ali – o que implicava ter menos obrigações -, qualquer  outra tarefa que um morador local não pudesse fazer, passava a ser sua responsabilidade. Ela não podia dizer não, não podia descansar, não podia ser livre.  O peso posto sobre os ombros dela era insuportável. Isso tudo nos leva de volta à frase do início: “And so, therefore, I don’t believe in God anymore”. 

Caminhando pela vizinhança, com sua filha e sua mulher Lisa – uma musicista de qualidade imensurável, compositora ímpar e excelente cantora – Michael Gungor professa sua descrença. Músico virtuoso, exímio compositor e um dos artistas mais prolíficos e criativos que o universo cristão já pôde experimentar, Michael – e também Lisa – experimentou a faceta “dogvilliana” da religião institucionalizada. Se conheceram na igreja, construíram sua relação no ambiente da igreja, formaram família, fizeram a vida nos espaços eclesiásticos. O sexo, o beijo, o corpo. Tudo guardado para o momento correto. Aos 20 anos já estavam casados, fazendo parte de uma mega igreja em Denver e tendo o sustento garantido pelos serviços prestados à comunidade de fé.  Mas a pressão sobre os ombros de ambos era descomunal. A estética e  performance exigidas pelo universo cristão é purista, excludente e cruel. “Para pertencer a esta tribo, você tem que se conformar. E se tiver dúvidas, você é uma pessoa perigosa”, diz Lisa. Lisa e Michael já lotaram muitos lugares de pessoas que queriam ouvir a música, ver a arte produzida pelos dois. Mas se a arte é um meio de expressão e por ela conseguimos comunicar e captar mensagens, não é de se espantar pensar que a arte que produzimos nos põe frente a frente com nossos “vícios e virtudes”, o que nos leva a questionar muita coisa sobre nós mesmos. Resumindo: o contato com a arte faz emergir as dúvidas. Mas a performance correta e a estética perfeita do “bom cristianismo” não aceita dúvidas. Dessa forma, assim como foi com Grace, toda a boa ação dos casal Gungor se transformou em obrigação moral.

Uma vez que as dúvidas abalaram a fé de ambos, já não eram bem vindos entre os “santos”. Hoje eles experimentam uma fé sem nomes, que se revela através da vida de Lucy, a filha caçula do casal, e de sua irmã Amelie. Lucy foi diagnosticada com Síndrome de Down assim que nasceu. Nada que a impedisse de ser inteligente esperta, linda. Uma criança que ressignificou a fé já ressignificada de seus pais. Para os Gungor, “somente uma fé que se abalou inabalável é”. 

Nos anos de 1990 o cenário da música cristã nos presenteou com excelentes artistas. Caedmon’s Call era um dos nomes associados a esse grupo de artistas incrivelmente criativos. Derek Webb era uma das vozes e mãos que davam o tom dessa, que foi uma das bandas mais expressivas do fim dos anos 1990. Junto a ele, Sandra McCraken. Os anos se apresentaram conturbados para o casal. Derek mergulhou, adivinhem só, em dúvidas sobre sua fé, lutou contra questionamentos antigos, abandonou e reatou seu relacionamento com a igreja. Em 2013 lançou o disco “I Was Wrong, I’m sorry and I love you”, no qual, na música homônima ao disco, relatava suas idas e vindas, mas reconhecendo que tudo que queria dizer em tudo que buscou era a tríade de sentenças mencionadas: eu estava errado, eu sinto muito e eu te amo. Quando parecia que ele havia encontrado seu caminho de volta aos braços da estética e da performance religiosa, Derek quebra o silêncio, assume seus erros, confessa que traiu sua mulher e abraça de vez o ateísmo. Como o rei perplexo e confuso da música de Leonard Cohen, ele também compõe o seu “hallelujah torto”.Em “Spirits bears the curse” , terceira faixa de seu disco mais recente, “Fingers Crossed”,  Derek declara:

Agora meus joelhos estão fracos
Meu discurso é arrastado
Oh, você agita as coisas
O, você agita as coisas
Eu estou chamando o único nome
Que me libertou da minha culpa e vergonha


Oh, álcool
Álcool
Oh, álcool
Nós levantamos nossas vozes para o álcool
Álcool
Uma oferta de álcool
Álcool
Oh, álcool
Oh, álcool

A oração confusa, dura, mais sincera que tantas outras que já ouvimos e fizemos, revela um homem que viu sua fé erodir, se transformar e que abraçou a dor como resposta ao Deus que não gosta de ser importunado com dúvidas. Hoje Derek se declara ateu.

Um outro menino australiano, no início dos anos 2000 cantava ‘I will read my bible and pray. I will follow you all day”, mas, semana atrás, ele veio a público, já aos 40 anos, para parafrasear a banda R.E.M ao dizer algo como: “I’m losing my religion”. Marty Sampson, um dos mais populares integrantes da mega igreja Hillsong e da mega –  e minha querida – banda Hillsong United, publicou – enquanto esse texto ainda é redigido – um longo texto, com uma carga emocional altíssima, sobre como ama seus amigos, a família que o acolheu e amou, a igreja da qual fez parte, mas  que, apesar de ter gostado de ser cristão por muito tempo, e até amar os cristãos, ele já não é mais um deles. 

Lisa, Michael, Derek, Marty. Pessoas diferentes, relatos semelhantes. A ideia de Deus lhes serviu de casulo. Cresceram, o romperam e agora fazem o caminho da desconstrução para reconstruir. Cada um a seu modo, cada qual com suas escolhas. Mas talvez, por motivos claros, você também não tenha se convencido pelo Deus das churches. É bem possível que nem mesmo a ideia de Deus lhe agrade. Afinal de contas, pra que serve Deus?

Bem no início do curso de Ciências Sociais, tive aula com um professor indiano. Vindo de uma cultura muito distante da cultura ocidental, assimilava as questões divinas com outra perspectiva. Um dia, enquanto estudávamos um texto bíblico – o que é comum na disciplina de Estudos Comparados da Religião -, ele perguntou: Para que serve Deus? 

As respostas variavam entre os alunos. Uns defendiam a ideia de que Deus servia para enganar e fazer fortuna. Outros acreditavam num certo tipo de dominação pela alienação, dizendo que Deus servia como uma distorção da realidade.  Havia os que, em suas palavras, faziam coro com Richard Dawkins, dizendo que Deus era um delírio. Então meu professor respondeu a pergunta que ele mesmo havia feito:

-Para quê serve Deus? Deus serve para nos livrar da dor. Se o teu Deus não faz isso, troque-o. 

Não havia hedonismo ou rebeldia em sua resposta. Ali se descortinava para mim a imagem da  possibilidade de um Deus que não assume uma postura totalitária e opressiva. Trocar Deus não significa dizer que ele não presta, então o jogo fora como uma coisa. Não é para o caminho desse Deus reificado, mecânico, que ele apontava. Ele não estava pregando um ateísmo radical, mas um rompimento com a uma ideia de Deus. Se o Deus exibicionista e pirotécnico dos dias de hoje não me agrada, me apego ao Deus de Simone Weil, que se revela no meio da dor. Se o Deus não afeito às artes, que despreza o lúdico em prol da eficiência, não me agrada, me apego ao Deus de Rookmaaker. Se o Deus rígido, que se compraz em punir, não me agrada, me apego ao Deus que se permite ser questionado. E se nenhuma ideia de Deus me agrada, a vida segue sem problemas também. 

Prefiro seguir acreditando que a ideia de Deus é multiforme. Que, assim como cantam Lisa e Michael, Deus não é homem. Deus  Não é um homem branco, não é um homem sentado em uma nuvem, não pode ser comprado, não será encaixotado, nem será possuído pela religião. Deus não é um homem velho, não pertence aos republicanos, não é uma bandeira, nem mesmo é americano e não depende de um governo. 

Deus bate bolos, borda, joga futebol, aprende a engatinhar. Ele se apaixona, chora, sofre, faz coisas lindas do pó.

 Talvez Deus seja como um de nós. Um desajeitado, como um de nós. Um estranho em um ônibus, tentando voltar pra casa.


Diego Neves é músico integrante da banda Legrand, designer gráfico, sociólogo em formação e aspirante a escritor.


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