Altear

A leveza pode subir aos céus, sem cortes, sem peso, com o vento alcança o divino.

Na terra, cortes, a fragilidade é o pedaço de espelho que agora pontiagudo ameaça, seu reflexo é material, tem um ângulo que não é o da luz.
Mulheres e Homens, e outros tantos gêneros. Mas fiquemos com mulheres e homens. E deus que é o próprio ser, junção de tudo que existe e existiu, em sua historicidade tentou definir ângulos, cores, formas. Isto é do feminino, isto masculino. A e O, reta e curva, círculo e quadrado.

Mulheres, teciam, preparam comida e cama. Em mulheres se deitam.

O livro ali compõem-se em tecido que acolhe, em linha que fura e une, em folhas e flores que secam, em textos que fixam histórias.

“Pois fique sabendo que você também não é perfeito”, e os fatos e frases se repetem, num sussurro altamente perceptível.
Tecerei o manto da vida até o fim dos dias, e nesta extensão encontrarei os amores que decerto abrirão algumas fissuras, os rasgos previstos que não são ação do tempo nem das traças.

Dormirei em boca seca, procurando algo nele, arrancado de mim.

Serei sua mãe, sua avó, neta e filha. Deitarei as noites, acordarei aos dias, ficarei aos dias, esperarei o tempo, costurarei eu mesma, com flores e folhas de um chão para saber que eu piso, estou no mesmo tempo que você e eu sentarei para te mostrar, uma linha atravessa até o outro lado, você pode ver? volto a ponta que levemente fura meu dedo, consegue ver? faço uma reta em preto, prego a folha rosa sobre o pano quase branco, que um dia também foi flor, e que outras mãos

colheram, outras mãos fizeram, outras mãos trouxeram, e através do tempo as coisas se alteraram.
As mulheres colhiam, teciam, as mulheres deitavam.

Em pérolas cobrirei os pontos carcomidos do teu passado, em anéis de vínculos eternos.

“Não peça nada quando o cônjuge estiver com fome”, Coma com tua boca imunda qualquer rastro de sangue e algo que doa. Com seu útero encolha, retorça, trema. Com ameaças de um outro desejo, agnus-castus sobre tua colcha. Nada te faltará.

Renda-se, de Rodrigo Milanni.

Marize Moreno é artista com interesse em pesquisa em mulheres artistas brasileiras, atua também no setor educativo do MAMM.


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