A Experiência Museológica como Finalidade

Talvez uma das maiores dificuldades que instituições museológicas enfrentam em seu dia-a-dia, está, entre outras atividades, impulsionar e gerir propostas educativas consoantes com sua missão institucional. 

Diante deste desafio, o presente artigo propõe algumas considerações acerca de possibilidades de ações educativas em diferentes linhas de atuação tais como: visitas mediadas, agendamento de grupos e escolas, criação de objetos pedagógicos, criação de material educativo para professores, portadores de necessidades especiais e estrangeiros, visitas técnicas para os funcionários da equipe de conservação, vigilantes, corpo técnico, além de criar projetos direcionados à comunidade do entorno. 

O ponto de partida é o entendimento do momento da visita enquanto experiência museológica, sobretudo porque os espaços museais oferecem possibilidades de experiências dinâmicas, com narrativas expográficas que estimulam a curiosidade a partir da interação. Deste modo, os visitantes têm a oportunidade de conhecer, por meio de diferentes percursos, histórias de vida, trajetórias políticas, obras de arte e artistas diversos, além de passarem por experiências estéticas e consumir conteúdo científico.  

Para a construção de uma abordagem que respeite a experiência dos indivíduos, é fundamental proporcionar aos visitantes a oportunidade de atuar com autonomia dentro do espaço expositivo, bem como compartilhar informações importantes para que a mediação seja feita aproveitando as potencialidades observadas pelo visitante. Nesse sentido, podemos entender que a qualidade da visita está diretamente associada à profundidade da experiência na qual o visitante estará inserido.

Visitantes interagindo com obra do artista Ernesto Neto – Pinacoteca

Por este motivo, vale destacar que as sensações que podem ser despertadas no âmbito do espaço museológico são capazes de promover uma educação do olhar, proporcionando o desenvolvimento de novos modos de pensar, propícios a reflexão, abrindo sua percepção para outros campos semânticos, de modo que ele seja capaz de mudar a maneira como lê e interpreta o mundo. A importância das sensações pode ser entendida em relação aos museus da seguinte forma:   

(…) O museu é o lugar em que sensações, ideias e imagens de pronto irradiadas por objetos e referenciais ali reunidos iluminam valores essenciais para o ser humano. Espaço fascinante onde se descobre e se aprende, nele se amplia o conhecimento e se aprofunda a consciência da identidade, da solidariedade e da partilha (…)  

Disponível em: <http://www.museus.gov.br/os-museus/&gt; Acesso em 09/01/2019, 8:22 

Nesse sentido, é válido ressaltar a importância de uma experiência potencializada por emoções e sensações, para que o indivíduo tenha de fato uma visita rica, aproveitando o espaço e o acervo como ferramentas para estimular o entendimento de conceitos e conhecimentos relevantes.  

Ação Educativa no Museu de Arte do Rio (Foto: Divulgação)

Uma das estratégias utilizadas para oferecer ao visitante recursos que provoquem sua percepção e emoções, deslocando-o de sua posição meramente passiva, é o potencial estético existente nos circuitos expositivo. Para além das obras de arte, dentro desta perspectiva, é preciso, considerar que, na elaboração conceitual dos museus, nas edificações, bem como nas potencialidades dos acervos, as interseções com o campo artístico foram traçadas à partir das escolhas estéticas que foram feitas para implementação dos espaços, nos percursos expositivos, mobiliário, objetos, etc. Essa característica evidencia as potencialidades de trabalho que tem como ponto de partida a articulação de conceitos através das formas, cores, texturas, sensações táteis, criando um contexto propício a experiencias também estéticas.

Atividade de construção de estruturas geométricas no Memorial da República Presidente Itamar Franco.

Jean-Marie Guyau, em seu livro: A Arte do Ponto de Vista Sociológico, desenvolve um raciocínio onde o rudimento estético é um potencial vetor para produção de uma emoção estética, sendo essa caracterizada como a mais imaterial e intelectual emoção humana (GUYAU, 2009), portanto, um aspecto que carece de ser aprofundado.     

Por este motivo, para que a experiência museológica ocorra em um nível mais sensível, é preciso conectar as esferas estéticas e a subjetividade das vivências, porque, em geral, a experiência é um ato contínuo, como diz John Dewey em seu livro Arte como Experiência: A experiência ocorre continuamente, porque a interação do ser vivo com as condições ambientais está envolvida no próprio processo de viver. (DEWEY, John. pág 109). Sendo assim, experiências significativas – que podem ser mensuradas como transformadoras ou marcantes – dependem de forte carga emocional para se consolidar, (como aprender a andar de bicicleta, por exemplo).

Nesse sentido, tudo o que toca a percepção é passível de ser trabalhado com o objetivo de despertar a curiosidade e provocar reflexões que tornarão o interesse pelos espaços e pelos acervos cada vez mais latente. 

Outro aspecto relevante, é considerar que o visitante deve ser observado pelo educador enquanto ser cultural, ou seja, um indivíduo que traz consigo experiências e vivências pessoais que devem ser reconhecidas como recursos a serem utilizados para ampliação das possibilidades de construção de conhecimento durante a visitação. Pierre Bourdieu, em suas categorias de capitais simbólicos, afirma que cada indivíduo reage de maneira diferente à estímulos estéticos, por conta de valores e apropriações provenientes de socializações primárias, construindo um repertório cultural que possibilita cada um de nós intuir acerca de valores estéticos ou culturais, que acabariam, ao fim, sendo utilizados como recursos de poder. Deste modo, Bourdieu sugere, em algumas ocasiões, que a cultura pode ser utilizada como veículo de mobilidade social (SILVA, 1995, PÁG, 28). 

Portanto, cabe aos setores Educativos dos museus, propor abordagens institucionais que desloquem os visitantes de sua posição de mero receptor de informações/orientações acerca do espaço, acervo e de como se comportar dentro do museu, para uma posição participativa, sendo estimulado a atuar ativamente na troca de conhecimentos inerentes às atividades museológicas. Assim sendo, cada instituição poderá exercer o papel de agente catalizador, promotor de ações educativas que apresentem diversos trajetos e possibilidades onde o visitante torna-se partícipe da construção do conhecimento.


Frederico Lopes é Artista e Escritor. Trabalha no Memorial da República Presidente Itamar Franco e é fundador da Bodoque Artes e ofícios.

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