Objetos Nômades II

por.: Henrique Grimaldi Figueredo

“Uma versão deste ensaio foi inicialmente publicada na Revista Subversa – Literatura Luso-Brasileira (ISSN 2359-5817) em novembro de 2017, e encontra-se disponível no link: http://revistasubversa.com/artigo/objetos-nomades-henrique-grimaldi-figueiredo-juiz-de-fora-mg/.

O homem almeja a facilidade do mundo, tudo que se ensaia, tudo aquilo que se prende – por comodidade – na afabilidade de um conceito pronto. Parece não haver, nessa narrativa antropologizada, um lugar de desvio, de (des)começo das coisas. 

 [Não digo um lugar da negativa, porque até mesmo
o ‘anti’ apresenta seus riscos; riscos outros, riscos de
estanciação por substituição: de A por B, do ‘pro’
pelo ‘contra’; e os códigos, meus caros, estão
sempre fadados ao engessamento. São igualmente
inválidos na dicotomia que os castra. Dóceis porque
a-flexivos]

[Não digo um lugar da negativa, porque até mesmo o ‘anti’ apresenta seus riscos; riscos outros, riscos de estanciação por substituição: de A por B, do ‘pro’ pelo ‘contra’; e os códigos, meus caros, estão sempre fadados ao engessamento. São igualmente inválidos na dicotomia que os castra. Dóceis porque a-flexivos]

Não; o que nos interessa é o ‘entremeios’ de uma existência, aquilo que, por estar em modalidade de viagem, torna-se incompatível com qualquer traço de perenidade. A viagem sacoleja a carga, é gatilho para uma forma outra, o que chega ao final é vorazmente distinto do que o empacotado no início. Eis a beleza da coisa: a mensagem-item é autoeditada num per si que é, por si só, o jogo a-normativo. 

O que se insinua não possui nome próprio. Nem há motivo para tê-lo. Chamaremos de objetos nômades esses artefatos do sensível, e na ausência de uma terminologia mais definitiva ou elegante, deixemos assim, nômades, apenas viajantes de um sentir cambiável. 

São os objetos nômades da ordem dos inclassificáveis, ordem esta que é essencialmente uma desordem dos conceitos, ou melhor, uma re-ordem das coisas, de uma pulsão operante de recombinações e remodelações, de tudo que agita o que insiste em se assentar harmoniosamente no fundo. A beleza do barro reside no balé de suas multi-partículas em uma água manente, não no piso arenoso e temerário de sua calmaria. 

À classe dos objetos nômades pertencem muitas coisas. Tudo está apto a nomadizar. Existe uma vontade, expressa na modalidade da pré-coisa, que acena em ser outro. A coisa é coisificada pelo Outro – o homem –, cuja castidade e o medo ante o incognoscível leva ao fechamento axiomático das verdades. Que poesia há na certeza? Sinceramente, não vejo. Há mais beleza no escapamento do carro que é interpretado como disparo, ou no aroma noturno de flores que lembram a morte; do que na mecânica incontestável dos que querem afirmar o mundo. Confio neste desejo das pré-coisas, essa ânsia quase baudelairiana em ser flâneur, vaguear; compartilho de sua aspiração. 

A palavra escrita, por exemplo. Quando escrita, uma vez escrita, inscreve-se como imagem, grupo de signos cuja cadência espera-se gerar uma determinada afetação. Se escrita, é imagética. Migra da zona mental de composição, assumindo uma corporalidade de papel, uma tatealidade expressa na visão.  Deleuze, ao refletir sobre a criação, gerenciava o ato criador como ato agenciador: agenciador de palavras, de vozes, de visões. A coisa agencia outra coisa por acúmulo. A criação é nesse sentido cria[cumula]ção! E é nessa polifonia do acúmulo que a poiésis do nomadismo ocorre. 



BLOOD PIECE
Use your blood to paint.
Keep painting until you faint. (a)
Keep painting until you die. (b)
1960 spring


Yoko Ono

Eis aí um primoroso exemplo de nomadismo objetual. A poesia propositiva de Ono, uma vez escrita é imagética, deixa o domínio da oralidade e se perpetua através e na visualidade. Não pertence a ninguém mas pertence a todos. Há certa indomabilidade da criação e diferentes sentidos de nomadização. Se leio mentalmente << poesia nomadiza para a visão >> se leio oralmente << poesia nomadiza para a visão e para a vocalização >> se interpreto a ação << nomadiza para a visão e da visão para ação >> se interpreto a ação até o fim << nomadiza da visão para a ação e da ação para a transcendência do sujeito: morte >> 

Autoria desconhecida. Fonte: wehearit.com. 

Em seu “Livro sobre nada”, Manoel de Barros opera uma desobrigação do ato relacional de olhar: “O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê/ É preciso transver o mundo/ É preciso deformar o mundo”. Essa ação vibrátil do olho, que descredencia o real como imperativo na ação de ver insere, analogamente, o gesto de um “transver” subjetivo, isto é, ser incivilizável ante a um existir sistêmico e conformado. Um traço de desobediência plural que a poesia compartilha com a ação poética. Ao nomadizar do escrito ao vivencial cria-se um curto-circuito no que se entende pela realidade. Para parafrasear Bourriaud, um momento de conversão que desencadeia “mais movimentos dos observadores do que exigido para sua elaboração”. Os objetos nômades são assim pequenos respingos de ativação político-poética, fissuras desejadas no tecido febril e desalentador da sociedade.  

Nas viagens impetradas no sensível, os objetos nômades delineiam dois grandes contornos: é uma vez 1. Objeto Nômade: objeto porque mesmo na adimensionalidade catártica das virtualizações há corpo, e nômade porque são intimamente desassossegados, migrantes; da literatura para a arte, do biológico para o poema, do mecânico para o orgânico. Mas também o é outra vez 2. Objeto Nômade: no sujeito, porque ao ser/interpreta-lo na menor das instâncias, me torno nômade por agenciamento, deixando minhas coordenadas para adquirir outro lugar; assumindo-me objeto neles e por eles.

E no início era o Verbo, e o Verbo se fez [carne, imagem, oco, eco, palavra, silêncio, sentido, (muitos eteceteras); finalmente NÔMADE] e habitou entre nós. Que a palavra nos brinque-de-ser-poema e que nos nomadize à máxima manoelina: “Perdoai, mas eu preciso ser Outros/ Penso renovar o homem usando borboletas”. 

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