Processo civilizatório?

No último dia 13 de maio, o Memorial da República Presidente Itamar Franco inaugurou a exposição “Reminiscências: danças populares e processo civilizatório no Brasil”.

Com fotografias, textos, esculturas e vídeos, a exposição reúne uma pequena mostra da riqueza política, cultural e estética dos muitos cortejos, alguns dos quais centenários, ainda hoje espalhados pelo interior do país, assunto cuja beleza só rivaliza mesmo com sua importância para a experiência histórica brasileira.

O texto abaixo integra a exposição.

Processo civilizatório ? 

Sem título, c. 1865, Rio de Janeiro. Georges Leuzinger. Instituto Moreira Salles. Reprodução

por: Tarcísio Greggio

O conceito de civilização como processo de refinamento de condutas e realizações culturais é uma novidade do século XVIII, resultado de uma série de tensões históricas e linguísticas, as quais, naturalmente, merecem um texto à parte. A palavra,  no entanto, deriva do latim civilis – isto é, o que diz respeito ao cidadão – e, apesar dos diferentes contextos históricos nos quais se inscreve, o uso que gregos e romanos fizeram termo civilização parece ter sobrevivido à ação do tempo: bárbaro é o outro! 

No correr do século XIX, em contato com o ideal de progresso, a noção de civilização ajudou a parir o conceito de raça, tão abjeto quanto o século XX não deixa esquecer, para finalmente encontrar, a serviço da mais pura barbárie, o paroxismo de sua instrumentalização. Mas essa já é a história de nosso tempo, em dia com as reminiscências por meio das quais, em cada uma de suas escolhas, essa exposição procura fazer a memória de nossos esquecimentos. 

Sem título, c. 1860, Bahia. Autor desconhecido. Instituto Moreira Salles. Reprodução

Caravelas portuguesas à frente, os europeus travaram contato com dois mundos inteiramente novos, inteiramente outros, aos quais restou, contra o peso de seu passado milenar, a violência da colonização – do latim colonus, pessoa instalada em um lugar novo -, essa sim uma palavra que teve de esperar a modernidade para conhecer toda a extensão de seu significado. Europeus e africanos de todas as nações passaram então a dividir a terra de tupiniquins, tupinambás, tamoios, caetés, potiguaras e tabajaras e, num par de séculos, viram nascer o que talvez tenha sido o maior mercado de escravos que o mundo já conheceu. 

Sem Título, c. 1885, Minas Gerais. Marc Ferrez. Instituto Moreira Salles. Reprodução

Bárbaros, selvagens, feiticeiros, desalmados, inferiores e agora mercadorias, iorubás, cabindas, minas, axantis e tantos outros acabariam por encontrar, nos ecos de sua ancestralidade, os meios de inverter os símbolos que “legitimavam” o açoite, evitando, tanto quanto possível, o abismo de tornar-se, nessa terra tão estrangeira quanto sua, um outro de si mesmo. 

História que não deixa de ser a das Congadas, Maracatus, Moçambiques, Reisados e demais folguedos populares que, espalhados sobretudo pelo interior do Brasil, ainda hoje embalam a memória de um passado que insiste em não ceder. É, igualmente, a história de Kimpa Vita, a congolesa de origem nobre cujos milagres, considerados kindoki, decidiram seu destino de herege, e de Chico Rei, o ex-escravo que alforriava os seus e que, segundo consta, está na origem das Congadas em Minas Gerais. 

É a história, enfim, de “todas as gerações do cativeiro, da liberdade, da esperança e a empoderada – agregadas nas gerações do espetáculo – [que] se encontram nas festas do tempo presente” (MONTEIRO, 2016, p. 37). 

Bárbaro é o outro! 

Referências:

BERT, Jean-François. “Éléments pour une histoire de la notion de civilisation”. Vingtième Siècle. Revue d’histoire, Paris: Presses de Sciences Po, 2010/2, n° 106., pp. 71-80. 

MONTEIRO, Lívia Nascimento. A congada é do mundo e da raça negra: memórias da escravidão e da liberdade nas festas de congada e moçambique de Piedade do Rio Grande-MG (1873-2015)”. Niterói: Universidade Federal Fluminense (tese de doutorado), 2016. 

ELIAS, Norbert. Processo civilizador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1993, 2v. 

RODRIGUES, Raymundo Nina. Os africanos no Brasil. Rio de Janeiro: Centro Edelstein de Pesquisas Sociais, 2010. 

Kimpa Vita 

Líder de uma seita que ficou conhecida como ‘antonionismo’, movimento religioso com importantes desdobramentos políticos no início do século XVIII, Kimpa Vita é considerada a mãe da revolução africana. Congolesa de origem nobre, Kimpa Vita contava entre “18 e 20 anos quando, acometida de forte doença, disse ter falecido e depois ressuscitado como Santo Antônio […]. Africanizando o catolicismo, ‘a Santo Antônio congolesa’ dizia que Cristo nascera em São Salvador, a verdadeira Belém, e recebera o batismo em Nsundi, a verdadeira Nazareth. Afirmava ainda que a Virgem Santíssima era negra, filha de uma escrava ou criada do Marquês de Nzimba Npanghi e que São Francisco pertencia ao clã do Marquês de Vunda […]. Organizou para tanto uma verdadeira igreja antoniana, um clero, onde pontificavam outros santos, como São João, e uma plêiade de sacerdotes denominada de ‘os antoninhos’ que saíam a pregar a excelência da nova igreja e o poder taumatúrgico e apostólico ‘da Santo Antônio’ que a chefiava […]. 

Kimpa Vita foi presa, arguida pelo capuchinho Bernardo Gallo e condenada a morrer na fogueira como herege do catolicismo. A sentença foi executada em 1708 e na fogueira arderam Kimpa Vita e seu ‘anjo da guarda’ – o Santo Antônio e o São João do catolicismo congolês”. 

Referências:

VAINFAS, Ronaldo & SOUZA, Marina de Mello e. “Catolização e poder no tempo do tráfico: o Reino do Congo da conversão coroada ao movimento antoniano, séculos XV-XVIII”. Niterói. Revista Tempo, nº 6, 1998, pp. 95-118, p. 106-107. 

Negro do Congo – Litografia de M. Rugendas – século XIX.

Chico Rei 

“As explicações para as origens do ritual do congado em Minas Gerais, segundo relatos orais e escritos, enfatizam os temas do aparecimento de Nossa Senhora do Rosário no ‘mar’, numa ‘gruta’, numa ‘lapa’ ou num ‘barreiro’, nos tempos antigos da escravidão, e o papel de um Rei Africano que contam ter se tornado muito conhecido em Vila Rica pela alcunha de Chico Rei – e cujo nome de batismo cristão ora é relatado como Francisco da Natividade, Francisco Lisboa da Anunciação ou ainda Francisco Lázaro. Esta personagem ‘lendária’ é descrita como um rei tribal congolês que foi trazido para o Brasil como escravo e levado para as Minas Gerais, onde, forçado a trabalhar na lavra de ouro, conseguiu com esforço braçal comprar a sua liberdade. Além disso, com astúcia e a solidariedade dos ‘irmãos de mesa’ da Irmandade religiosa da qual se tornou membro, também logrou alforriar tantos outros cativos. Este ato heróico valeu ao ex-escravo a coroação simbólica como Rei Congo do Brasil, e a oportunidade de promover a primeira ‘festa do congado’, em homenagem aos santos católicos padroeiros da Irmandade e protetores dos africanos e dos seus descendentes, e também em louvor à maior divindade da cosmovisão africana congolesa: ‘Zambi-Apungo’”. 

Referências:

SILVA, Rubens Alves da. “Chico Rei Congo do Brasil”. In: SILVA, Vagner Gonçalves da (org.). Imaginário, Cotidiano e Poder: Memória afro-brasileira. São Paulo: Selo Negro Editores, 2007, pp. 43-86, p. 45

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