Criação

por: Kariston França

Toda a criação é fruto de um processo de inspiração e expiração, é ler o que está ao redor e misturando com a nossa absorção do meio, expirar aquilo que é gerado.

Ler, pensar, imaginar…

As coisas que mais mudaram o mundo, vieram de transbordos, de expirações.

Algumas geraram caos e destruição, outras apenas alimentaram a vida.

De fato, a criação é reflexo de destruição e renascimento, de oxidação das células, de reprodução das mesmas antes de morrerem.

Morte e Vida.

Neruda viveu em meio às manifestações populares, essas revoluções fizeram de Neruda um entusiasta da poesia lida nas praças, ruas, estações e lugares mais incomuns e no entanto, comuns de todos aqueles que o cercavam.

Certa vez, Neruda foi convidado a ler para o sindicato de descarregadores de cargas de um mercado importante na capital chilena. Era um lugar frio, com janelas quebradas, pouquíssimas cadeiras, muitos caixotes e a época próxima do rigoroso inverno chileno tornou sua missão mais difícil ainda.

Segundo relato de seu livro “Confesso que Vivi” os trabalhadores estavam com roupas remendadas, descalços, com panos de saco, e olhares vidrados aguardando a leitura de seus relatos do livro ” Espanha no coração”.

” Ao sentir o silêncio como de água profunda em que caiam minhas palavras, ao ver como aqueles olhos e sombrancelhas escuros seguiam intensamente minha poesia, compreendi que meu livro estava chegando ao seu destino.”

A vida e a arte o surpreenderam naquele dia gélido, e aos soluços de todos no sindicato e os dele mesmo, encerra o relato se indagando: ” pode um poeta ser o mesmo depois de ter passado por essas provas de frio e fogo?”.

Frio e fogo, calor e altitude, tremores intermináveis e encontros surpreendentes transformaram a vida de Alexander von Humboldt, e no livro de Andrea Wulf chamado “A Invenção da Natureza”, eu embarco na vida de um jovem (daqueles que não deveriam morrer rs), um jovem que reconstruiu a maneira como a ciência é vista e como a mesma dialoga com a sociedade.

Muito novo, Humboldt viveu mais experiências e descobertas do que muitos de nós viveríamos em três vidas.. não houveram paredes que fossem capazes de conter seu desejo pela observação e apreciação da natureza e de como ela estava conectada.

A poesia e a ciência tiveram um caso de amor, e dali nasceu Humboldt, já dizia Goethe…

Figure 6. Sketch of Old and New World Vegetation by Goethe

Humboldt explorou o continente sul americano e desenvolveu a sua teoria da terra como um único e extenso organismo.

Em meio ao caos da Europa napoleônica, o mesmo desembarca, desbrava, se leva ao limite e sem perder o ânimo, retorna a Europa já dentro da soberania de Napoleão.

Achando entrar em um período de morte acadêmica, Humboldt observa os pesquisadores em Paris, compartilhando experimentos e descobertas nas praças, telhados de casas, restaurantes, esquinas!!

A arte e a ciência haviam gerado não apenas Humboldt, mas estavam gerando um novo tempo, estavam saindo de suas fortalezas, e se tornando intensas e ao mesmo tempo comuns!

Não existe um local específico aonde a criatividade possa fluir. Nos movemos e nos reinventamos para que o nosso dia seja mais agradável e proveitoso.

Nossas universidades hoje de certo modo ameaçadas de serem multiladas, nossas grades educacionais não podem continuar retendo a criatividade e o impulso criador de todos nós.

Precisamos resgatar o desejo de fundir os conhecimentos técnicos e teóricos em meio ao suor e o desgaste de um povo cansado as 18:15 no ônibus lotado.

Precisamos expandir a criatividade e a surpresa da vida para que cada parte desse organismo gigante chamado terra, se torne participante da arte global.

Qual o nosso legado? Seremos reducionistas e aprisionaremos nossa vida, nossa luta e nossa criatividade em castelos tão frágeis quanto uma folha de papel ou nos empenharemos em deixar que esse papel se torne uma pipa em meio ao vento que carrega a vida aos quatro cantos da terra?

Inspire, expire, explore, se ajunte e viva!

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